Segunda parte de "É uma linha tênue"

 

Capítulo 5

No mês seguinte, os dois cumpriram à risca o trato de convivência pacífica. O ambiente na sala dos professores se tornou visivelmente mais relaxado e até o Prof. Binns, que mal se ligava nas coisas materiais, notou a diferença. Portanto, não foi o estresse da proximidade com Snape que fez a saúde de Miranda decair.

 

Ela se sentia cansada, enjoada, com tonturas. Primeiro ela pensou que fosse problema de estômago, depois estresse e por último achou que fosse uma gripe se aproximando. No final, depois de colocar para fora o café da manhã, ela desistiu de adivinhar e foi ver Madame Pomfrey, que lhe deu um exame completo.

 

O diagnóstico é que a deixou surpresa.

 

– Não há nada de errado com sua saúde.

 

– Tem certeza? Meu estômago anda muito irritado. Hoje eu até vomitei.

 

– O que é muito natural, na sua condição. Você está grávida.

 

O coração dela perdeu o ritmo por um segundo e meio.

 

– Não... Não, deve haver algum engano.

 

– Engano nenhum. Você está grávida de pelo menos quatro semanas.

 

A mente de Miranda trabalhou velozmente e num átimo ela soube como tinha engravidado. Uma sombra caiu sobre seu coração ao se dar conta de que carregava um filho de Snape. Não podia ser!... Um filho, e logo de Snape!

 

Os deuses estavam rindo dela.

 

Madame Pomfrey viu-lhe a tristeza:

 

– O que foi, querida? Não são boas notícias?

 

– Não estou muito certa – confessou. – O pai não quer nada comigo e certamente não vai querer saber do filho.

 

– Oh, minha querida.

 

– Ainda não estou acreditando. Poppy, eu não quero que ele saiba. Por favor, pode confirmar a identidade do pai para mim? Preciso ver para aceitar.

 

– Mas... você tem dúvidas de quem é o pai?

 

– Não. Mas eu preciso acreditar, Poppy. Se você me disser, talvez eu me convença de que não estou sonhando e que isso está realmente acontecendo comigo.

 

– Está bem, eu vou fazer o feitiço. Mas ele gera um documento formal, não se esqueça.

 

– Mesmo?

– Sim. Ao mesmo tempo em que você conhece a identidade do pai de seu filho, um documento aparece, o certificado de paternidade. – Ela ergueu a varinha. – Pater eclaro!

 

Uma vibração percorreu o abdômen de Miranda e segundos depois, da varinha de Poppy saiu um pergaminho – que Miranda leu com pesar. "Certificado de Paternidade. Mãe: Miranda L. Montgomery. Pai: Severus Snape."

 

– Oh – fez a enfermeira, impressionada. – Agora entendo toda a sua resistência.

 

– Por favor, Poppy, eu não quero que ele saiba. Pode manter segredo?

 

– Eu estou sob o juramento de Hipócrates, Miranda. Por dever de ofício, eu devo guardar seu segredo. Mas deixe-me dizer, como profissional de saúde, que uma gravidez bruxa tem componentes mágicos, emocionais e físicos. E um segredo desse pode ser devastador para o aspecto emocional de sua gravidez. Para a segurança de seu bebê, eu recomendo que não procure se estressar desnecessariamente.

 

– E o bebê? – Ela se alarmou. – Ele está bem?

 

– O bebê está ótimo, e sua saúde também é boa. Vou lhe prescrever algumas poções, descanso, boa alimentação e ar puro. Procure não se estressar no trabalho. Quero vê-la regularmente, a cada 15 dias, ou antes, se os enjôos matinais persistirem.

 

– Sim, Poppy.

 

– E se quiser conversar, meu consultório está sempre aberto. Lembre-se de que você pode ter grandes variações de humor, e às vezes conversar sobre isso ajuda.

 

Miranda sorriu, tocada com a gentileza de Madame Pomfrey. A jovem professora tinha muito que pensar, depois dessa notícia.

 

Com um mês de gravidez, ela tinha a opção técnica de fazer um outro aborto. Mas essa era a última coisa em que Miranda podia pensar. Depois do fiasco com Edwin, ela jamais perderia a oportunidade de ter outro filho. Mesmo que fosse com Snape.

 

Ela dava como líquido e certo de que Snape nada queria com seu filho, já que ele tinha deixado claro que nada queria com ela. Ficou em dúvida se contava para ele ou não. Claro que ela sabia que contar seria o correto; afinal de contas, sendo ele o pai, ele tinha direito de saber. Mas Snape detestava crianças, como qualquer um podia ver. O que garantia que ele se sentiria diferente só porque era seu filho?

 

E Miranda não deixaria ninguém machucar seu bebê. Mesmo que fosse filho de Snape, ele era filho dela, e ela já se sentia imensamente possessiva em relação a ele. Sentia o instinto maternal se instalando plenamente dentro de si – o mesmo instinto que a fazia se sentir gentil e suave, capaz de amar imensamente aquela coisinha que crescia em seu ventre, fazia-a virar bicho só de pensar que alguém poderia querer ferir seu bebê. Era uma leoa que se manifestava dentro de Miranda, uma mulher que já era naturalmente orgulhosa, tinha uma forte personalidade e não levava desaforo para casa.

 

Seguindo as recomendações de Madame Pomfrey, ela adquiriu o hábito de passear à beira do lago no final da tarde, sozinha. A temperatura era fresca, naquela época do ano, e isso ajudava a clarear seus pensamentos. Por isso, ela não demorou a tomar uma decisão. Ela tinha que contar para uma pessoa, pelo menos. Alguém que precisava saber, que merecia saber.

 

– Balinha de limão?

 

– Não, obrigada, diretor. Agradeço por me receber. Receio não ter boas notícias.

 

– Verdade? Parece tensa, criança.

 

– Estou grávida, senhor.

 

– Mas que excelente notícia! Parabéns!

 

Mas Miranda não compartilhava de seu entusiasmo:

 

– Prof. Dumbledore, eu não sei qual é a política de Hogwarts em relação a professoras grávidas não-casadas, por isso estou disposta a deixar meu cargo se o senhor for obrigado a me dispensar.

 

– Isso jamais me passou pela cabeça. Claro que se quiser deixar a escola para ter mais tempo de cuidar do seu bebê, eu entenderei.

 

– Não me entenda mal, diretor. Eu adoro Hogwarts. Fui muito bem acolhida aqui. Odiaria ter que sair, e só faria isso obrigada. Mas não sei como seria possível acomodar um bebê aqui.

 

– Não precisa se preocupar com isso. Para quando é o bebê?

 

– Está previsto para junho, talvez final de maio. Tudo indica que não terminarei o ano.

 

– Eu vou arranjar para um substituto ajudá-la nos meses finais. Estou pensando em Kingsley Shacklebolt ou Remus Lupin.

 

– Não conheço Lupin. Kingsley e eu somos bons amigos.

 

– Lupin é excelente professor, e já lecionou em Hogwarts há cerca de quatro anos. Muito qualificado. Já decidiu se vai querer continuar como professora depois de ter o bebê?

 

– Eu poderia continuar em Hogwarts mesmo com um bebê?

 

– Minha cara, eu jamais pensaria em separar um bebê de sua mãe. E não há nada de mais nisso: afinal, Hogwarts é uma escola para crianças. Mas o pai não ficará com saudades do pequeno?

 

Uma dor perpassou o coração de Miranda.

 

– O pai... – ela tomou fôlego – provavelmente não vai querer saber de nós dois.

 

– Você já conversou com ele, ao menos?

 

– Não, isso seria inútil.

 

– Pelo menos ele sabe sobre a gravidez?

 

– Não.

 

Dumbledore meneou a cabeça e manteve a voz suave.

 

– Claro que eu não sou ninguém para dizer o que você deve fazer com sua vida, Miranda. Mas se me permite uma indiscrição, não acho prudente deixá-lo de fora num momento tão sublime de vocês dois. Se depois de saber, ele ainda assim optar por permanecer distante, ele tem esse direito, claro. Mas se eu aprendi uma coisa nos meus anos todos, foi isso: nunca subestime as pessoas. Muito facilmente, elas podem nos surpreender. Dê ao pai de sua criança a chance de surpreendê-la.

 

Miranda não respondeu.

 

 

Caía a tarde quando Severus observou Miranda atravessar o gramado, indo em direção ao lago, como fazia todas as tardes. E como fazia todas as tardes, Severus a observava, pensativa, meio tristonha.

 

Sim, ele notava certa mudança em suas atitudes. Agora ela raramente aparecia para o café da manhã junto com os demais professores no salão, e parecia mais melancólica e distante. Ele tinha que admitir que sentia falta do olhar indignado e do brilho nos olhos azuis quando os dois discutiam. Mas ele concordara com a trégua e iria respeitá-la.

 

O pior é que ela continuava na sua cabeça. Maldição!

 

Por mais que ele tentasse reprimir as lembranças, ele não se esquecia daquela noite, daquela única noite e de sua pele alva, do cheiro de seus cabelos, do toque de seus seios, dos gritinhos que ela dava quando...

 

Não! Chega daquilo. Talvez ele precisasse preparar uma Poção do Esquecimento. Mas será que ele realmente queria esquecer aquela noite?

 

As coisas se complicaram numa manhã, cedinho. Severus subia as escadas para o café da manhã no salão quando divisou uma silhueta estranha na porta dos aposentos de Miranda. Era uma figura que parecia estar dobrada sobre o estômago.

 

Miranda.

 

Sem pensar no que fazia, ele correu e confirmou que era ela mesma, curvada, aparentemente tentando manter o conteúdo de seu estômago dentro dele. Ela estava pálida e trêmula, e havia papéis e livros espalhados a seus pés.

 

– Você está bem?

 

– Vai passar – ela ofegou, fraca. – É só... passageiro...

 

Mas suas palavras a traíram e ela caiu de joelhos, incapaz de continuar de pé. Severus a segurou:

 

– É melhor irmos até a ala hospitalar. Pode andar?

 

Ela tentou se erguer, apoiando-se nele.

 

– Não será necessá...

 

Não completou a frase, desfalecendo nos braços dele. Severus a ergueu nos braços e levou-a até a ala hospitalar, ignorando os olhares espantados dos alunos que se dirigiam ao salão para o café da manhã.

 

Quando o viu, Madame Pomfrey se alarmou:

 

– Pelo amor de Merlin, o que aconteceu? – Apontou o leito mais próximo. – Aqui, Severus, por favor.

 

– Pouco sei sobre isso, Poppy. Eu a encontrei passando mal no corredor. Ela realmente não parece nada bem.

 

A matrona começou o exame imediatamente, dizendo mais para si mesma:

 

– Ah, eu devia ter adivinhado. Ela não está tomando as poções que eu indiquei e não tem se alimentado também. O estresse é grande e... Ah, ela realmente não tem tomado as poções.

 

– Poções? Por quê? Ela está doente?

 

Só então Madame Pomfrey se deu conta de que ele ainda estava lá:

 

– Obrigada, Severus, mas eu assumo daqui para frente. Se puder avisar o diretor que a Srta. Montgomery vai precisar ficar afastada por uns dois dias, eu agradeceria.

 

– Ela vai ficar bem?

 

– Oh, sim, sim, pode ficar tranqüilo. Agora vá para que eu possa examiná-la devidamente.

 

Ele relutou em sair, curioso. Mas sabia que não adiantava discutir com a enfermeira. Já estava no corredor quando um elfo doméstico materializou-se diante dele:

 

– Mestre Snape, senhor! Estes são os livros e papéis da Srta. Montgomery. Dippy achou no chão e quer entregar.

 

Severus recolheu a pilha mal-feita, dizendo:

 

– Deixe que eu cuido disso.

 

– Obrigado, Mestre Snape, senhor!

 

Dippy desapareceu tão rápido que alguns dos papéis voaram da pilha precária e o Mestre de Poções agachou-se para pegar. Arregalou os olhos quando viu seu nome escrito num deles. Era um certificado de paternidade.

 

O nome da mãe era Miranda Montgomery. Ele era o pai.

 

Durante alguns segundos ele deixou a informação penetrar totalmente. A Srta. Montgomery esperava um filho seu. Ele ia ser pai.

 

E ela tinha conseguido esconder isso esse tempo todo. Não que Severus soubesse ou desconfiasse, mas ele tinha achado incomum o pedido de Madame Pomfrey por mais Poção Anti-Náuseas, e agora via a explicação. Também era óbvio que Miranda estava usando feitiços para disfarçar o volume de seu ventre.

 

O choque permaneceu com ele praticamente o dia inteiro. Os alunos perceberam, claro, mas quando viram que o Mestre de Poções não estava tirando pontos de suas casas, nenhum deles quis fazer alarde.

 

No final do dia, Severus voltou à enfermaria. Madame Pomfrey pareceu agradavelmente surpresa quando ele anunciou que tinha vindo visitar a Srta. Montgomery e levou-o até a paciente. Ela estava deitada, pensativa, e Severus achou-a pálida.

 

– Prof. Snape – ela tentou se sentar.

 

– Por favor, não se mexa por minha causa – ele puxou uma cadeira – Sente-se melhor?

 

– Sim, obrigada. Agradeço a ajuda que me deu hoje de manhã.

 

– A senhorita me pareceu muito mal. É bom ver que está melhor.

 

– É, eu achei que fosse apenas um mal passageiro. De qualquer forma, Madame Pomfrey deu um jeito em mim e eu vou ficar nova em folha.

 

– Folgo em saber – ele inclinou a cabeça, respeitoso. – Trouxe seus livros e papéis, mas posso mantê-los sob minha guarda até que seja liberada.

 

– Pode deixar comigo, obrigada. Está sendo muito gentil, Prof. Snape.

 

– Apenas cortesia para com um colega de trabalho. Há alguma coisa que eu possa fazer para ajudá-la enquanto estiver incapacitada?

 

– Não, obrigada. Já fez mais do que devia. Seria um abuso.

 

– Bobagem. Acredito que essa possa ser uma oportunidade para termos uma convivência menos penosa – Ela arregalou os olhos e franziu o cenho. – Afinal, somos colegas e devemos contar uns com os outros. Não concorda?

 

– Certamente, claro. – Miranda ainda parecia intrigada.

 

– Excelente. Se eu puder fazer algo, qualquer coisa, por favor, não hesite em pedir.

 

Ela mordeu o lábio, enrubescendo. Pela Legilimência, Severus pôde constatar que ela relutava muito em lhe contar. Ele achou melhor não confrontá-la. Daria um tempo para que ela abordasse o assunto primeiro.

 

– Agradeço a oferta, professor.

 

– Chame-me de Severus.

 

– Eu sou Miranda.

 

– Nesse caso, Miranda, se me permitir, gostaria de acompanhar seu progresso. Posso vê-la amanhã?

 

– Se quiser.

 

– Eu insisto. Cuide-se bem.

 

Severus saiu dali satisfeito, mas ainda intrigado. Era óbvio que a moça tinha sentimentos confusos, desconfiava de suas intenções e continuava não simpatizando com ele. Por um momento, ele tentou imaginar qual a melhor forma de lidar com a situação tão delicada.

 

Tudo aquilo era tão novo para ele. Certamente jamais passara por sua cabeça a possibilidade de ter um filho. Na verdade, ele odiava crianças. Mas acima de tudo ele era um Slytherin e um sangue-puro, e aquela podia ser sua melhor chance de assegurar a sucessão da linhagem dos Snape. Não iria deixar escapar essa oportunidade. Com o tempo, pensou, ele aprenderia a suportar a mãe de seu herdeiro. Não que aquilo fosse necessário, claro. Mas seria interessante tentar gostar da mãe. Ao menos foi isso que ele disse a si mesmo.

 

Severus mal sabia o que o futuro lhe reservava.

 

Capítulo 6

 

Nas semanas que se seguiram, Hogwarts inteira testemunhou cenas nunca dantes imaginadas: Severus Snape e Miranda Montgomery tratando-se civilmente. A tudo Dumbledore assistia com o característico brilho nos olhos, sorrindo para si mesmo, satisfeito como se tivesse tido participação naquilo. E ninguém podia, em sã consciência, ter certeza de que não tinha.

 

Miranda estava cada vez mais surpresa com o comportamento do temível Mestre de Poções. Ela começou a achar que talvez o homem tivesse um coração, apesar de todos os sinais apontarem o contrário. Foi então que ela começou a repensar suas decisões.

 

Sim, porque ela tinha tomado decisões. Desde que soubera estar grávida, seu primeiro impulso tinha sido jamais contar a Severus que o filho era dele, para evitar ter qualquer ligação com aquele homem horrível. A criança seria só sua, e ela não precisava dele para criá-la.

 

Mas o fato de Severus ter direito a saber da verdade e a forma civilizada como ele a estava tratando nos últimos tempo fizeram Miranda repensar seu plano. Seria bom, para a criança, ter contato com o pai, especialmente se ele continuasse a mostrar esse lado mais gentil e polido dos últimos tempos. Secretamente, porém, ela começou a entreter a fantasia de que algo poderia surgir entre os dois, algo mais íntimo e pessoal, e que a criança poderia ajudar a consolidar essa união tão improvável.

 

Quem sabe os três pudessem ser felizes? Talvez Miranda pudesse ter direito a uma vida plena e satisfatória ao lado de seu filho e do pai da criança. Com sorte, eles poderiam até descobrir amor um pelo outro. Ela não era totalmente contrária a isso.

 

O tempo foi passando, Miranda descobriu que estava grávida de uma menina. Ela se encheu de ternura, por não há nada mais meigo do que uma menininha para conquistar os mais velhos. Ela lamentou o fato de sua família ser tão pequena. Por um momento, ela imaginou a interação de sua filha com o pai. Ela morria de curiosidade de ver isso ao vivo.

 

Por seu lado, Severus começou a prestar mais atenção em Miranda. A princípio, era para saber quando ela revelaria a verdade, depois ele simplesmente começou a olhá-la. Aos poucos, a idéia de uma união com a moça não lhe pareceu tão espinhosa: ela tinha tanta energia, tanta paixão... Severus começou a imaginar como seria ter toda essa paixão dirigida a ele, e admitiu estar gostando dessa idéia.

 

A gravidez fazia bem a Miranda, notou. A moça parecia irradiar um brilho suave de quem carrega os mistérios e segredos da maternidade. Embora não tivesse feições de uma beleza clássica ou óbvia, ela estava positivamente atraente com tal brilho natural.

 

Ele gostaria de descobrir mais sobre ela, talvez passar mais tempo com ela. A si mesmo, não admitiu ter nenhum tipo de sentimento mais profundo pela moça, e preferiu ativamente não pensar nisso.

 

Severus não sabia, mas desconfiava que Miranda estivesse perto do sexto mês de gestação. Ele começava a ficar impaciente com o silêncio dela. Aquilo não podia continuar assim. No fim de semana, ele se ausentou de Hogwarts brevemente e Aparatou para a Mansão Snape a fim de buscar um objeto.

 

Sábado à noite, Miranda estava fazendo um lanche junto da lareira, imaginando se deveria dormir mais cedo aquela noite. Sua mente, como sempre, estava na sua filha, que naquele momento esticava a perninha, chutando-lhe o ventre. Miranda não cansava de acariciar sua barriga, e ansiava pelo momento em que poderia fazer carinho na sua filha.

 

A batida na porta a surpreendeu. Quem poderia ser, àquela hora?

 

Severus Snape, de todas as pessoas.

 

– Professor?

 

– Desculpe a hora, senhorita, mas o assunto tem uma certa urgência. Posso entrar?

 

– Claro, por favor. Desculpe-me os trajes.

 

– Não se preocupe com isso – Ele tomou fôlego. E coragem. – Profª. Montgomery, eu soube recentemente de sua condição e estou mais do que decidido a fazer parte da situação.

 

Miranda arregalou os olhos e tentou disfarçar:

 

– Do que está falando, professor?

 

– Sei que a senhorita está grávida de um filho meu.

 

Dessa vez ela quase engasgou.

 

– Você sabe? Como? Quem lhe contou?

 

Do fundo de sua mente, Miranda se lembrou que o certificado de paternidade tinha estados nas mãos de Snape. Será que ele tinha mexido nos papéis dela?

 

– Ninguém me disse. Na verdade, eu descobri por acidente. Mas isso não importa. O que importa é que eu tenho esperado nas últimas semanas por sua revelação. Ela não veio.

 

– Por isso tem sido tão gentil comigo?

 

– Espero seu sinal, mas estou ficando impaciente, por isso tomei uma decisão e peço que me perdoe se pareço impetuoso demais – ele tirou do bolso uma caixinha forrada de veludo e apoiou um joelho no chão – Miranda Montgomery, gostaria de se casar comigo?

 

Parecia impossível, mas os olhos se arregalaram ainda mais e ela quase parou de respirar. Mal ela se recuperara do choque de ter seu segredo descoberto pela última pessoa que queria, e o homem tinha lhe pedido em casamento!...

 

– Este é o anel que todas as mulheres Snape vêm usando há sete gerações. Muitos feitiços de prosperidade e fertilidade foram fundidos junto com o metal. Eu ficaria honrado se você aceitasse usá-lo para a cerimônia.

 

Definitivamente, ela não iria conseguir sair do choque. A garganta estava seca, as mãos tremiam ligeiramente e o anel na caixa tinha uma esmeralda que parecia brilhar diretamente para ela.

 

– Eu... eu... Por favor, me desculpe. Isso tudo foi tão inesperado.

 

– Eu compreendo – A voz dele era suave e seu olhar, gentil. – Talvez você queira algum tempo para pensar, mas confesso estar um tanto ansioso por sua resposta.

 

Miranda mal podia acreditar e não conseguia parar de encarar o Mestre de Poções. Ele parecia ser realmente sincero, parecia querê-la como esposa, parecia disposto a tê-la junto de si e aceitar a filha. Miranda jamais tinha imaginado que ele iria querer participar, iria querer assumir a filha, mas estava claro que ele pensava em ter uma vida em comum com ela. Talvez eles até pudessem pensar em ter um relacionamento. Em sentimentos.

 

– Sei que não tivemos um bom começo – ele continuou. – Mas tenho certeza de que daqui para frente isso pode ser remediado. Temos uma criança para pensar.

 

A moça de repente tomou um jeito de realidade.

 

– Olhe: não quero que se sinta obrigado a nada por causa da criança. Agradeço o que está fazendo, mas se não quiser, não precisa se casar comigo. Não precisa nem se envolver.

 

– É claro que eu preciso – ele pegou a mão dela, e Miranda enrubesceu feito uma colegial. – Nenhum herdeiro do nome Snape vai nascer fora dos laços do casamento.

 

Algo parou no tempo.

 

Miranda sentiu todo o sangue lhe fugir do rosto e um ódio frio e cego subiu por seu pescoço.

 

– Um herdeiro Snape? – ela perguntou, numa voz calma e perigosa.

 

– Exatamente – ele disse, satisfeito. – Essa criança vai assegurar a sobrevivência da linhagem. Não há outros Snape vivos. Sou o último.

 

Agora o orgulho dela lhe inflou as veias. A voz dela mudou de novo.

 

– Então esse é o motivo disso tudo? Você veio reclamar o seu herdeiro?

 

Só então Severus percebeu que dissera a coisa errada.

 

– Não só isso, claro que não...

 

Mas Miranda já estava cega, o orgulho ferido, o temperamento descontrolado, e ela o interrompeu ferozmente:

 

– Você não liga para mim ou para minha filha! Só o que você quer é assegurar a sucessão de sua estúpida dinastia puro-sangue! Você me seguiu, foi gentil comigo, foi um cavalheiro e um amigo, mas só para garantir que o nome de sua preciosa família não vire pó quando você for desta para a melhor! Você nunca se preocupou nem comigo nem com sua própria filha!

 

Severus estava começando a reagir, mas ele repetiu:

 

– Filha?

 

– Isso mesmo, não é irônico? – Miranda sorriu com desprezo. – Seu precioso herdeiro não é um varão, e sim uma menina. O nome dos Snape vai desaparecer no minuto que ela se casar!

 

– Eu não estou entendendo...

 

– Pois entenda isso: eu não me casarei com você nem que você seja o último homem da face da Terra! Não sou sua égua criando um filhote de raça!

 

O rosto dele se crispou de ódio:

 

– Você é absolutamente insana!

 

– Mas não sou fácil de se tapear! Você tentou me enganar com seu papo gentil, seu teatrinho de bom moço! Eu quase caí na sua armadilha, mas você se traiu! No fundo, você jamais deixou de acreditar nessas idéias de supremacia racial de Voldemort, sobre o sangue puro de um bruxo! Uma vez Death Eater, sempre Death Eater, não é verdade, Snape? Você devia ter vergonha de si mesmo! Não é digno da medalha que recebeu!

 

Ele mudou de expressão, e empalideceu completamente, chocado além da capacidade de articulação. Cega de ódio, Miranda foi até a porta e abriu-a com violência:

 

– Acho que não temos mais nada a conversar, Prof. Snape! Passar bem!

 

Ele guardou a caixinha com o anel de noivado no bolso de suas vestes e deu dois passos até a porta. Antes de sair, ele olhou fundo nos olhos de Miranda, os dentes cerrados:

 

– Só temos mais uma coisa a conversar. Como a senhorita bem lembrou, eu tenho um herdeiro a reclamar. E há meios legais de se fazer isso, não se esqueça.

 

Miranda sentiu as pernas tremerem ao se dar conta o que isso significava, mas tentou disfarçar:

 

– Está me ameaçando?

 

Ele mostrou os dentes num sorriso pequeno e cruel – e não era uma visão nada agradável:

 

– Ora, eu acho que estou, sim. Passar bem, senhorita.

 

E saiu pela porta afora, as vestes voando mais do que de costume.

 

Miranda fechou a porta, tremendo toda, tentando recuperar o fôlego e colocar as idéias em ordem.

 

Por muitos instantes, só o que ela pôde fazer foi deixar-se cair no chão, segurar sua barriga com força e chorar.

 

De medo. De ódio. De vergonha. De humilhação.

 

Ela devia ter desconfiado.

 

Severus Snape nunca foi gentil nem bonzinho. Ele deveria ter um motivo por trás de seu comportamento bizarro, e aquela noite ele tinha provado isso. Ela tinha sido uma idiota de pensar que Snape poderia ter qualquer tipo de sentimento por ela.

 

E o pedido de casamento a tinha deixado tão esperançosa, tão feliz, tão surpresa...

 

Só o que ele queria era sua filha, reclamar seu herdeiro. E ele tinha ameaçado abertamente entrar com uma reclamação formal junto ao Ministério da Magia para ter seu herdeiro.

 

Miranda tinha ouvido falar que os Muggles tinham uma coisa semelhante chamada custódia. Mas a reclamação de um herdeiro era muito diferente para a sociedade bruxa. Primeiro, porque ela só acontecia entre pais que não eram casados. Por isso os filhos fora do casamento eram tão evitados; para não haver disputas de herança ou genealogia. Se os pais não-casados não conseguissem um acordo sobre a guarda da criança, ela seria objeto de uma reclamação formal. Para tais ocorrências, o critério para determinar quem teria a guarda da criança era o pai com mais poderes mágicos. Afinal, teoricamente, quem tivesse mais poderes era capaz de melhor proteger o filho. No caso deles, Miranda não tinha dúvida de que Snape era um bruxo muito mais poderoso do que ela.

 

Ela iria perder Silvia.

 

Sim, porque o nome de sua filha pipocou-lhe na mente enquanto ela encarava Snape, naqueles brevíssimos momentos em que ainda imaginara a vida dos três juntos.

 

Miranda chorou tanto que ficou cansada e com dor de cabeça. Gostaria de dormir, mas não conseguia, as cenas repassando-lhe todas na mente. Nem tomar uma poção para dormir ela podia, pois isso poderia fazer mal para Silvia.

 

Só o que ela queria era se deitar e sumir da face da terra com sua criança. Ela tinha que fazer algo, impedir Severus.

 

Mas como?

 

Talvez ela pudesse fugir e ter o bebê no mundo Muggle. Em cinco minutos, ela desistiu da idéia. Os motivos eram claros. Um bruxo poderoso como Snape não só a localizaria num piscar de olhos, como também uma vida de fugitivo não era o que Miranda tinha em mente para criar Sílvia.

 

Ela não sabia o que fazer.

 

Capítulo 7

 

Por mais que quisesse passar o domingo de cama, Miranda não conseguiria. Especialmente depois do almoço, quando uma visita inesperada apareceu em seus aposentos.

 

– Surpresa! – O vozeirão a teria assustado se ela não conhecesse o bruxo tão bem.

 

– Oh, por Merlin, King! O que você está fazendo aqui?

 

Kingsley Shacklebolt sorriu, seus dentes muito brancos contrastando com a pele negra.

 

– Um velho amigo não pode passar para uma visitinha?

 

– Entre, vamos! Puxa, que saudade! O que me conta do QG dos Aurores?

 

– Todos sentem sua falta, Miri.

 

– Oh, que gentil. Você é a última pessoa que eu esperava ver em Hogwarts.

 

– Dumbledore me convidou para almoçar. Ele queria me chamar para dar aulas de Defesa contra as Artes das Trevas no final do semestre. Miri, não é você a professora dessa matéria? Você vai sair?

 

Ela enrubesceu:

 

– Eu não vou poder dar as aulas no final do semestre. Estou grávida.

 

– Verdade? – Ele abriu outro sorriso. – Você nem me contou que tinha conhecido alguém! Pode-se saber quem é esse namorado misterioso?

 

Ela sentiu uma dorzinha no coração.

 

– Não é o que você está pensando. Não é uma história de amor.

 

Miranda lhe contou a versão resumida do que vinha passando nos últimos meses. Kingsley ouviu com atenção, observando a tristeza estampada no rosto da ex-Auror ir aumentando à medida que falava, até as lágrimas escorrerem quando ela indicou que Snape poderia brigar pela guarda de Silvia. Ele conjurou um lencinho e abraçou-a com cuidado por causa do abdômen expandido.

 

– Miranda, procure se acalmar. Isso não deve fazer bem nem para você nem para o bebê.

 

– Como posso ficar calma? Esse homem quer o meu bebê! Oh, King, como posso impedi-lo? Ele é mais poderoso do que eu. Se ele quiser tomar Sílvia de mim, não vou poder fazer nada!

 

– Não pode fazê-lo mudar de idéia?

 

Ela cerrou os dentes só de pensar em ir falar com ele.

 

– Não acho que vai dar certo. Eu me descontrolei quando ele disse que nenhum herdeiro do nome Snape iria nascer fora dos laços do casamento.

 

– O quê? Snape a pediu em casamento?

 

– Só porque ele está interessado em seu herdeiro. Ele não dá a mínima para mim.

 

– Miranda, você não entende. Deixe-me dizer uma coisa. Você sabe que estive na Ordem da Fênix com ele. Snape não deixa ninguém se aproximar dele, para nada, nem para tomar uma xícara de chá. Ele sequer ficava para jantar conosco. Para ele ter feito um pedido de casamento para você, era porque era sério.

 

– Eu já disse: ele só queria preservar sua linhagem, só isso. Tratou-me feito uma égua prenha! – Seu temperamento começava a entrar em ebulição de novo.

 

– Pense bem. Eu conheço você e sei que pode ser bem teimosa quando quer, mas pense bem sobre isso. Acho que você deveria dar uma chance a Snape.

 

– Chance? Você fala como se houvesse alguma esperança de relacionamento. Você conhece o homem! Acha que ele tem um coração?

 

– Que exagero, Miri.

 

– Não é exagero! Ele é um cretino! E você fica aí me dizendo coisas como se ele pudesse sentir alguma coisa por mim.

 

– Olhe, pois eu digo que ele está estranho. Não sei se ele sente alguma coisa por você, mas talvez isso seja o máximo que Snape pode dar. O fato é que ele nunca fez com ninguém o que ele fez por você, Miranda. Qualquer um que o conhece vai lhe dizer isso. Você precisa lhe dar uma chance. Estou lhe dizendo isso para o seu próprio bem. Talvez você tenha exagerado na sua reação.

 

Ainda tremendo de ódio só de pensar, ela não respondeu. Preferiu mudar de assunto:

 

– Vai ser bom ter você por aqui. Sinto muito a sua falta.

 

– Oh, eu não aceitei a proposta de Dumbledore – Ela ficou boquiaberta. – Não posso me afastar do Ministério agora. Estou me candidatando ao cargo de chefe da divisão.

 

– Desculpe, eu pensei que você tinha aceitado ser meu substituto. Mas você não me falou de seus projetos! Parabéns, fico feliz por você. Por outro lado, gostaria que você fosse o escolhido para me substituir. Acho que preciso de um amigo.

 

– Pois eu concordo inteiramente com você sobre isso. Outra coisa que você precisa é terminar com esse segredo, Miri, isso está lhe fazendo muito mal. Não acha que isso pode afetar seu bebê? Digo, esses feitiços para esconder a gravidez e toda essa pressão para manter o mistério?

 

– Os feitiços são perfeitamente seguros. Mas acho que você tem razão sobre a pressão.

 

– Então – ele deu mais um de seus sorrisos brilhantes – que me diz de fazermos uma visitinha ao diretor antes do jantar?

 

Miranda sorriu de volta.

 

– Bolinho de chuva?

 

Albus Dumbledore exibia seu sorriso mais charmoso, os olhos com o brilho patenteado de sempre.

 

Severus Snape queria gemer alto.

 

O dia, até o momento, tinha ido de mal a pior. Tudo indicava que aquela conversa com o diretor de Hogwarts não contribuiria em nada para melhorá-lo.

 

A bem da verdade, o dia anterior tinha sido o pior de sua vida – e ele já tivera alguns dias bem ruins. Mas a rejeição de Miranda o atingira mais fundo do que ele podia prever. Ele não pensava que houvesse amor entre os dois, mas tinha desejado acreditar que eles pudessem ter uma vida comum aceitável, e a partir daí criarem seu filho. Ou filha, como havia sido informado. Agora isso pouco importava, porque ele tinha cometido um erro. Um erro fatal.

 

Severus Snape tinha cometido o erro de acreditar que, com o final da guerra, ele pudesse ter sido perdoado por seus crimes. Estupidamente, tinha acredito ter direito a um lugar de respeito na sociedade, onde seria aceito como um igual.

 

Idiota.

 

Miranda deixara claro o que ela pensava dele, uma opinião certamente compartilhada por toda a sociedade bruxa: ele no fundo sempre seria um Death Eater. Ele nunca deixaria de carregar essa marca, essa nódoa, esse pecado. Jamais seria aceito entre os bruxos de bem, quando muito tolerado. Mas ninguém nunca confiaria nele, ou se aproximaria dele por qualquer razão, se pudesse evitar. Ele era repulsivo, manchado e nada retiraria esse estigma. Um pária, para sempre rechaçado.

 

Por um tempo, depois de ter recebido a homenagem do Ministério, Severus ousou acreditar que tivesse pagado por seus erros. Mas Miranda tinha sido a porta-voz de toda uma comunidade que achava que ele jamais se livraria de seu passado, e que acreditar em qualquer outra coisa era pura ingenuidade ou franca estupidez.

 

Isso sem mencionar seus sentimentos por Miranda. Antes de fazer o pedido de casamento, Severus tinha que admitir que a apreciava, e mais: estava satisfeito que ela fosse a mãe de sua filha. As qualidades da moça eram de sua aprovação para educar sua herdeira, e ele tinha planejado também participar da criação da menina. Por isso a pedira em casamento, com esperanças de que algo mais pudesse florescer entre os dois.

 

Outro plano idiota. Não admira que tivesse desmoronado tão espetacularmente. Severus Snape não merecia desenvolver esses sentimentos por ninguém, porque ninguém jamais o olharia dessa forma.

 

"Uma vez Death Eater, sempre Death Eater", ela dissera. As palavras estavam gravadas a fogo na sua mente.

 

Isso, claro, não tinha sido tudo. O dia no qual ele se encontrava preso tinha começado de maneira excepcionalmente nefasta com o anúncio do diretor durante o café da manhã no salão. A todos os alunos e professores de Hogwarts, o Prof. Dumbledore anunciara a gravidez de Miranda, e sua iminente substituição por Remus Lupin.

 

Nenhuma menção tinha sido feita ao pai da criança.

 

Foi o sal na ferida. Ele não reagiu quando Miranda foi cercada por alunos e professores, que a crivaram de perguntas sobre o bebê e sua saúde. Ele não conseguiu ficar no salão e se refugiou nas masmorras, tentando controlar sua raiva e humilhação.

 

Então o diretor o chamara, no meio do dia. Estendera-lhe o prato com bolinhos de chuva e sorria-lhe com os olhos brilhantes. Severus recusou os bolinhos, preparando-se para o que vinha a seguir.

 

– Tive uma conversa muito interessante com a Profª Montgomery.

 

Era exatamente o que Severus temia.

 

– Albus, eu...

 

– Longe de mim querer me intrometer em seus assuntos pessoais, Severus – ele foi direto – Mas gostaria de lhe dizer que você fez a coisa certa ao pedi-la em casamento.

 

– Não foi culpa minha o modo como as coisas terminaram.

 

– Eu entendo, eu entendo. Mas talvez seja bom lembrar que Miranda está grávida, e como tal, sujeita a alterações hormonais.

 

– Não tente me enganar, Albus. Essa mulher sempre foi histérica e descontrolada, muito antes de engravidar.

 

– Não duvido disso, meu rapaz, mas mesmo assim procure atentar para esse fator metabólico significativo. Miranda está ainda mais sensível do que de costume.

 

– Isso pouco me afeta, porque eu pretendo nunca mais dirigir a palavra a ela.

 

– Ah. Gostaria que reconsiderasse essa decisão.

 

– Não foi minha decisão. Foi dela.

 

– Ah – Dumbledore suspirou. – Nunca me canso de ficar admirado com a capacidade do ser humano de escolher precisamente o que mais lhe prejudica. Há um jeito de remediar essa situação, Severus.

 

– Diretor, eu não vejo como. Na verdade, não vejo motivos ou oportunidades para tentar qualquer tipo de aproximação.

 

– E quanto ao reconhecimento do bebê?

 

– Vou reconhecê-lo como meu filho, é claro.

 

– É claro. Mas Miranda ficou sob a impressão de que você lhe fez ameaças sobre reclamar a criança como seu herdeiro.

 

Severus tinha quase se esquecido disso. Ele tinha dito aquelas palavras no calor do momento, mas jamais tinha pensado seriamente em cumpri-las. Não faria isso com Miranda, arrancar o filho de seus braços. Ele nem tinha como cuidar sozinho de uma criança. E aquela conversa de herdeiro só valeria a pena com uma família com quem compartilhar. Quanto mais pensava sobre o assunto, mais Severus se convencia de que ele deveria desistir de qualquer reivindicação sobre a criança. No fundo, isso seria o melhor: a criança poderia crescer sem ser reconhecida como o rebento de um antigo Death Eater vira-casaca de uma família de sangue puro amante das Trevas e em franca decadência. Se é que ele poderia dar algum presente para sua filha, poderia ser um nome limpo e desvinculado do seu, tão mal-visto pelo bruxo comum.

 

Para Dumbledore, porém, só o que ele fez foi desviar o olhar:

 

– É o meu direito.

 

– Esta é outra decisão que eu lhe peço que repense. Faça isso como um favor pessoal para mim.

 

– Diretor, eu...

 

– Severus – ele o interrompeu –, Miranda está aterrorizada com a perspectiva de que você possa lhe tirar a criança. Por que você não pensa na possibilidade de fazer visitas programadas, algo nos moldes da custódia Muggle para pais separados? Talvez vocês dois pudessem chegar a um acordo.

 

– Ela fechou essa porta. Na verdade, ela fechou todas as portas. Ela deixou claro que só o que quer de mim é distância. Se eu resolver reclamar minha herdeira, estarei apenas exercendo meu direito natural.

 

– Deixe-me fazer uma sugestão: a criança ainda vai demorar pelo menos dois meses para nascer. Por que você não usa esse tempo para refletir melhor sobre o que nós conversamos e analisar seus sentimentos?

 

Severus fez uma pausa.

 

– Considerarei seu pedido. Mas já aviso: há pouca chance de mudança na minha disposição.

 

– Só isso já é excelente. Fique tranqüilo, Severus. Tudo vai terminar dando certo.

 

Essa era uma coisa na qual Severus definitivamente não acreditava de jeito nenhum.

 

Nas semanas que se seguiram, ele continuou na sua rotina de observar Miranda à distância, a barriga volumosa (agora livre de feitiços e disfarces) obrigando-a a se mover mais devagar. Se ela notava que ele o via, ela estava ignorando-o. Miranda manteve sua rotina de passear perto do lago à tardinha, mas agora ela trazia um cobertor, em cima do qual se sentava no gramado, observando as águas. Severus tinha de admitir que gostaria de ir até ela, mas sabia que seria rechaçado. Portanto, ele se recolhia em sua dor e rejeição.

 

Miranda passou a estar sempre acompanhada, fosse por alunos ou por professores. McGonagall era uma das presenças mais constantes, assim como Harry Potter e os demais irritantes Gryffindors que iriam se formar ao fim do ano letivo. A professora grávida atraía um séqüito de seguidores, que a ajudava a carregar os livros, acompanhava-a nos corredores, ou simplesmente lhe fazia companhia. Mas o entardecer parecia reservado para a solitária comunhão com a natureza. De longe, Severus a vigiava, olhando-a sem que ela o visse. Ele gostava de vê-la naquele momento, sem a interferência de outras pessoas.

 

Num final de semana, a tia de Miranda, Lucy Hengisworth, chegou a Hogwarts para acompanhar a sobrinha na hora crítica do parto e dos primeiros dias do bebê. Severus observou a bruxa magra, de cabelos louros e olhar suave apesar de sua idade. Volta e meia, ela lhe lançava um olhar intrigado e afetuoso, como se estivesse inclinada a se aproximar ou convidando-o a fazê-lo. Polidamente, ele meneava a cabeça, cumprimentando-a, mantendo o mínimo de educação com a tia – já que a sobrinha não lhe estendia a mesma cortesia.

 

Dias depois, como era de se esperar, chegou Remus Lupin para assumir seu lugar de professor substituto. A mera presença do lobisomem, por si só, já era abjeta para Severus, mas tudo ficou ainda pior quando ele percebeu que Miranda imediatamente fez amizade com seu substituto. Os dois estavam constantemente juntos, mas sempre acompanhados pela tia Lucy, e muitas vezes o grupo incluía também Harry Potter. Severus passou a observar o grupo com ainda mais interesse.

 

Não demorou para que a fofoca corresse solta na escola e todos diziam que Lupin e Miranda tinham formado o mais novo casal de Hogwarts. O mau humor de Severus chegou a níveis abissais e o zelador, Argus Filch, alegremente recebia hordas de alunos para detenção. Aparentemente sem desconfiar de coisa alguma, Lupin e Miranda continuavam a desfilar juntos, desfrutando da companhia um do outro.

 

Até o dia em que o impensável aconteceu.