Capítulo 7 – Investimentos no banco de memória
– Você tá com frio?
– Não.
– Então por que tá com esse casaco comprido?
Severus encarou o menino com o mesmo olhar que fazia alunos do primeiro ano choramingarem. Mas Harry apenas devolveu o olhar, inocente, enquanto Lupin explicava:
– Severus está usando vestes tradicionais bruxas, Harry. É assim que a maioria dos bruxos se veste.
– Você tem uma roupa assim, Papai Remus?
– Tenho, sim. – Ele olhou Harry e disse: – Agora nós vamos viajar. Vai ser de um jeito diferente.
O garoto logo ficou animado:
– Vamos de trem? Eu nunca andei de trem.
– Não, vamos usar magia. Mas você é muito pequeno, por isso tem que ficar no meu colo, está bem?
– Está bem. – Os olhinhos brilhavam de curiosidade. – Vai ser de tapete voador?
– Tapetes voadores são proibidos. Vassouras podem ser usadas para voar, mas você ainda é jovem para usar uma.
– Vassouras? Vassouras que voam? Nossa!
Severus notou que o menino não tinha muita informação sobre o mundo bruxo. Indagou:
– Lupin, por que vivia como Muggle?
– Porque assim eu não seria discriminado por causa da minha... condição. Achei que, com isso, eu poderia encontrar um emprego razoável. E Harry também não seria assediado, ao menos até ter idade para ir para Hogwarts.
– Hogwarts? Não é a cidade para onde estamos indo agora?
– Harry, Hogwarts é o nome de uma escola. É uma escola de bruxaria. Lá eu conheci seu pai, sua mãe.
– Severus também?
– Sim, Severus também. Severus hoje é professor lá. Não é verdade, Severus?
– Precisamente. Podemos ir agora?
– Desculpe se estamos perturbando seu cronograma, Severus. Mas uma criança pequena, que deveria estar na cama, merece ser cuidada com esmero especial.
– Que é "mero"?
– A palavra é esmero. É o cuidado do Papai Remus. Agora pegue seu casaco, porque lá é frio.
O menino correu para dentro da casa. Severus notou que Lupin aproveitou a ausência dele e indagou:
– Tem certeza de que não é melhor pegarmos o Expresso de Hogwarts? Harry iria adorar.
Severus lembrou, azedo:
– Preciso lembrar que isso não é uma viagem de férias? Vamos aparatar até o ponto do Floo e pegar uma lareira direta para Hogwarts.
– Severus, Harry é pequeno e não está acostumado a isso. Pode ficar enjoado.
– Bom, isso é problema seu. Quando chegarmos a Hogwarts, posso providenciar uma poção.
– Eu só queria poupar o garoto, Severus.
Harry voltou, com o casaco na mão, e pediu:
– Não briga com ele, Papai Remus.
Severus ergueu uma sobrancelha, e Remus apressou-se a dizer:
– Ninguém está brigando, Harry. Já está pronto? Severus está impaciente para ir.
– Estou.
– E não precisa ir ao banheiro antes de irmos?
Harry sacudiu a cabeça, depois ergueu os braços para Lupin o pegar no colo. O gesto surpreendeu Severus. O garoto obviamente não era mimado, nem incapaz. Contudo, ele confiava plenamente no lobisomem. Obviamente, ele estava em boas mãos.

A viagem até Hogwarts foi rápida e sem incidentes. Mas a chegada não foi tão tranqüila. A intuição de Remus se mostrou afiada, e mal eles colocaram os pés no castelo, Remus olhou para Harry, no seu colo, indagando:
– Tudo bem aí, Harry?
O menino olhou para ele, tonto:
– Acho que sim...
O segundo seguinte provou que ele estava errado, quando o jantar fez uma aparição no tapete. Foi tão rápido que Remus não pôde evitar ou esboçar uma reação. Harry vomitou tudo praticamente de uma golfada só, sujando suas roupas, as de Remus e o chão atapetado.
– Oh... Ops. Desculpa.
– Oh, Harry. Está tudo bem. Você está bem? Vamos limpar isso.
Uma voz conhecida os interrompeu:
– Deixem, deixem isso comigo.
Remus viu o Prof. Dumbledore puxar sua varinha e limpar a sujeira, e só então se deu conta de que o Floo era ligado diretamente ao seu escritório. Harry ainda parecia meio pálido, mas ficou espantado ao ver a sujeira sumir.
– Pronto. – Dumbledore sorriu. – Não está melhor assim?
– Desculpe, Prof. Dumbledore. – Remus estava vexado. – Harry não está acostumado com Floo.
– Claro que não. Harry, que tal um pouco d'água para tirar o gosto ruim da boca?
O menino estava boquiaberto diante do diretor, e agarrou-se a Remus com mais força. O lobisomem indagou:
– Quer um pouco de água, Harry?
– Sim, por favor.
Dumbledore conjurou um copo, e Remus ajudou Harry a beber um pouco. O garoto estava de olho grudado em Dumbledore, desconfiado. Remus sentiu o desconforto dele e explicou:
– Harry, este é o Prof. Dumbledore, a pessoa de quem falei. Diga olá.
– Olá.
– Olá, Harry – respondeu Dumbledore. – Fico feliz que você esteja aqui em Hogwarts. E que extraordinário que você tenha encontrado meu amigo Remus.
– Ele é o meu papai e ele toma conta de mim – respondeu o garoto, olhando diretamente nos olhos azuis do diretor. – Por que você quer me tirar do meu Papai Remus?
A sobrancelha de Severus ergueu-se imediatamente. O garoto era bom, pensou.
Houve um breve mal-estar, que Remus tentou logo dispersar:
– Harry, isso não é coisa que se diga para o Prof. Dumbledore.
Harry sentiu que aquilo era uma bronca e quis chorar:
– Desculpe, Papai Remus. Eu não quero ficar longe de você. – O garoto se abraçou a Remus, chorando.
– Ninguém vai nos deixar separados, Harry. – Remus olhou para Dumbledore ao dizer isso, de maneira clara e decidida. – Eu disse a você que jamais deixaria ninguém nos separar, e eu falei sério.
Dumbledore apenas convidou:
– Por favor, sentem-se. Depois desta viagem, devem querer se sentar um pouco.
Severus se adiantou:
– Foi minha idéia trazê-los aqui, diretor. Achei que gostaria de ver a situação por si mesmo.
– Obrigado, Severus. Mas qual é a situação?
Remus ajeitou Harry no seu colo e informou:
– Harry é meu filho adotivo. Legalmente adotado, tudo de acordo com as leis Muggles.
Dumbledore se sentou em sua mesa, observando Remus atentamente. Severus adiantou:
– E o menino é muito apegado a Lupin, diretor, como pode ver.
– Sim, posso ver – concordou Dumbledore. – Remus, meu rapaz, você parece estar numa posição defensiva.
– Harry disse algo que eu estava pensando. Eu retirei o garoto da casa dos tios para evitar maiores danos. Mas, acima de tudo, faz tempo que penso em Harry como meu... filhote. Se é que entende o que eu quero dizer.
Dumbledore entendia. Ele olhou para Harry, que estava enroscado nos braços de Remus, olhando o local com curiosidade.
– Talvez Harry gostasse de conhecer um pouco mais do castelo enquanto conversamos – sugeriu Dumbledore. – Você parece ser um menino esperto.
Harry franziu o cenho para ele:
– Quero ficar com Papai Remus.
Remus também achou conveniente Harry não assistir às coisas que ele tinha a dizer a Dumbledore.
– Eu não vou a lugar nenhum, Harry. Por que não vai conhecer o castelo, e depois eu mostro para você o lugar onde eu e seu pai brincávamos?
Harry o encarou, desconfiado. Papai Remus nunca mentira para ele. Relutante, ele concordou:
– Tá bom.
Dumbledore pediu:
– Severus, por favor, poderia escoltar o jovem Harry pelo castelo?
O diretor observou com atenção Lupin colocar o garoto no chão. Severus, de sobrancelha erguida, aproximou-se do pequeno, que esticou a mão para o mestre de Poções.
– Obrigado, Severus – disse o menino, polidamente.
Dumbledore não acreditou na cena ao ver Severus deixar-se levar pela mão de Harry Potter para fora de seu gabinete.
Capítulo 8 – Magus Perdé
– Papai Remus está bravo.
– Sim, eu tive essa mesma impressão.
– Por que o Prof. Dumbledore ia querer separar meu papai e eu?
– É difícil tentar entender o Prof. Dumbledore, e eu sugiro que não tente. Suponho que ele tenha seus motivos. Afinal, ele achou que você ficaria melhor com sua família. Obviamente, ele se enganou.
Harry olhava as pinturas no corredor, e de repente se deu conta:
– Elas se mexem!...
– Bom, elas estão com sono. Querem dormir. Você também deveria estar dormindo. Está com sono?
– Não – disse Harry, olhando para os lados. – Mas queria ir para casa.
– Não está interessado em ver o castelo, está?
– Acho que sim. Mas eu só vou estudar aqui quando for maior, não é?
– Isso mesmo.
– Puxa... Aqui parece ter muita coisa legal. É grande, né?
– Bastante.
Harry o encarou, indagando:
– Por que você se esforça tanto em parecer mau?
Severus encarou o garoto. Era desconcertante que ele pudesse lê-lo tão bem. Normalmente isto o irritaria. Mas com Harry, ele não se irritava. Ao contrário, ele se sentia quase... orgulhoso. O rosto de Dumbledore ao ser desmascarado por um garoto de seis anos era uma memória que ele preservaria para o resto da vida.
Talvez houvesse algo no menino. Algo que explicasse como ele derrotara Voldemort. Severus sentiu-se atraído ao mistério que parecia ser Harry Potter.
Mas não, ele não estava amolecendo pelo garoto. Estava?
Ele respondeu à pergunta do garoto com outra pergunta:
– Por que diz isso?
Harry encolheu os ombros. Só pediu:
– Ajude Papai Remus, por favor. Eu sei que você não quer ver Papai Remus triste.
Aquilo causou impacto em Severus:
– De onde você tirou isso?
– Ajude ele, por favor, Severus.
– Em primeiro lugar, você deve me chamar de Prof. Snape.
– Sim, Prof. Snape.
– Depois, para ajudar seu pai, eu preciso voltar à sala do Prof. Dumbledore. Mas eles não querem você por lá e esperam que eu tome conta de você. Como sugere que resolvamos esse problema, Sr. Potter?
O garoto pensou:
– Eu posso ficar esperando na porta.
– Não funcionaria. Eles esperam que eu tome conta de você. Seu pai ficaria furioso comigo e com você.
– O que podemos fazer?
– Se me permite uma sugestão, proponho que eu o leve até uma cama, onde você prontamente deitará e dormirá. Quando você dormir, poderei voltar àquela sala e ajudar seu pai. Combinado?
– Você quer combinar de novo, como fizemos lá em casa?
– Isso mesmo. Você vai dormir, e eu ajudo seu pai no que puder. Podemos combinar mais um acordo?
Harry assentiu, imediatamente:
– Tá bom! Mas você vai ajudar, não vai?
Severus apertou os olhos e indagou:
– Quando foi que eu prometi algo e não cumpri?
Para Harry, as palavras não eram duras: elas eram a lembrança de uma promessa cumprida. As palavras lhe aqueceram o coração. Ele ergueu os braços:
– Podemos ir.
Severus não entendeu o que ele fazia, até que ele se lembrou de que essa era a postura de Harry para ser apanhado do chão e colocado no colo. Severus apertou os lábios, contrariado, mas pegou o garoto no colo. Espantou-se com o peso. Ele era mesmo muito magrinho.
– Não quer parar na cozinha e comer alguma coisa?
– Não temos tempo! Quero dormir logo, e aí você vai ajudar Papai Remus. – Ele olhou para Severus de maneira determinada. – Trato é trato.
– Sim, Sr. Potter. Como queira.
Encostando a cabeça no ombro do adulto, Harry deixou-se ser levado pelos corredores de Hogwarts, sentindo-se mais seguro e relaxado, a ponto de achar que realmente poderia dormir quando chegasse à tal cama que o Prof. Snape oferecera. Ele sabia que seu amigo (sim, sim, Prof. Snape era um amigo, pensou o pequeno Harry) iria ajudar seu Papai Remus. Harry tinha a impressão de que, para enfrentar aquele velho Dumbledore, Papai Remus ia precisar de toda a ajuda que pudesse conseguir.

Dumbledore passou uma xícara de chá ao lobisomem, com um sorriso e um brilho nos olhos azuis:
– Remus, meu rapaz, vê-lo aqui foi certamente uma surpresa.
– Suponho que sim. Também suponho que agora você pretenda me fazer desistir de Harry.
– Como assim, desistir?
– Não se faça de inocente, Albus – rosnou Remus. – Você quer me afastar de Harry. Por isso mandou Severus nos caçar e nos trazer aqui.
– Não pense que eu ignoro o quanto você gosta do pequeno, Remus. Mas você precisa entender que a precipitação de seu gesto em tirar o menino da casa dos tios pode ter conseqüências...
– Precipitação? Suponho, então, que eu deva lhe contar que quando eu retirei Harry daquela casa, ele estava inconsciente de tanto apanhar do tio.
– Bom, talvez a disciplina tenha sido exagerada se ele cometeu alguma peraltice...
– *Disciplina*? Não era o caso de um menino mal-criado. Aqueles Muggles estavam abusando dele! Ele estava sendo espancado! Um menino de cinco anos! Eu tive que chamar um médico para tratar dele, e o médico me aconselhou a denunciá-los à polícia. Confesso que fiquei tentado.
– Entendo que tenha se sentido irado, mas ainda assim...
– Não, Albus! – Ele se ergueu, irritado. – Não tente me convencer do contrário: eu fiz a coisa certa. Eu sabia que eles jamais gostariam do garoto. Lily sempre me dizia que a irmã era uma peste. Eu só não imaginei que ela fosse capaz de algo assim. Meus instintos me diziam que Harry estava em perigo, só que eu não podia adivinhar que era algo desta magnitude. Ele ainda precisa de um check-up médico. E você viu o tamanho dele? Ele pesa feito uma pluma!
– Há coisas que você não sabe, Remus. Harry está sob um feitiço antigo, uma proteção de magia ancestral. Enquanto ele habitar um local que o sangue de sua mãe circula, ele estará protegido. Mas você o tirou de lá, e agora ele perdeu essa proteção.
– Ele corria risco de não ficar vivo tempo o suficiente para desfrutar dessa proteção! Comigo ele não sofre nada disso.
– O feitiço funcionava perfeitamente. Sem mencionar que ele estava longe de nosso mundo, do assédio e de atenções duvidosas. O menino é famoso.
– Eu estou preparado para criá-lo no Mundo Muggle, longe desse assédio. Ao menos até a hora de vir para Hogwarts.
– Se a notícia que o menino está no nosso mundo se espalhar, ele pode ser alvo de atenções indevidas.
– Eu estou plenamente capacitado para protegê-lo.
– Exceto naqueles poucos dias no mês em que você está vulnerável.
– Eu já tenho a situação sob controle. Harry tem uma babá, uma pessoa em quem ele e eu confiamos, além de um lar, matrícula na escola, ficha no posto de saúde...
Dumbledore quase o interrompeu:
– Não quis dizer que você não tem capacidade de cuidar dele, Remus. Nem que você não queira bem a Harry.
– Claro que não. Da mesma forma, espero que você entenda que nossa conversa é mera deferência minha à sua posição, e meu respeito à sua pessoa. Harry é meu filho adotivo. Tenho autoridade sobre ele, autoridade legal. Posso muito bem escolher o estilo de vida que eu achar mais adequado. Para o bem de Harry.
Dumbledore soltou um sorriso e lembrou:
– Remus, meu garoto, não vai querer me antagonizar.
– Na verdade, não quero. Mas se não me deixar escolha, se vier com ameaças, eu farei oposição a você, sim, Albus Dumbledore. Estou defendendo o meu filhote, um membro da minha matilha. Vou morrer defendendo minha cria.
– Ele não é seu filho.
– Nem preciso dizer que é como se fosse. Eu vi o menino nascer, e considero-o como minha família desde essa época. Durante cinco anos, eu trabalhei como um escravo e juntei dinheiro para dar a ele uma vida confortável.
– O menino tem dinheiro. Como seu guardião, você tem acesso aos cofres da família. Pode deixá-lo bem confortável.
– O dinheiro é *dele*. Ele é quem vai mexer nele quando tiver idade para isso. Até lá, meu filho vai ser criado com o dinheiro que eu ganhar para nosso sustento, como qualquer pai faz.
– Vendendo pipocas?
– É um trabalho honesto. Mas eu já não faço mais isso. Era só um disfarce para me aproximar dele sem assustá-lo. Achei que ele temeria um homem estranho. O pior é que ele é tão carente de afeição que me aceitou quando ofereci apenas um pouco de carinho. Ele aceitou carinho de um estranho por culpa daqueles Muggles. – Ele franziu o cenho. – Então, está demente e senil se pensa que vou deixar você levá-lo de volta para os Dursley!
– Não, não, Remus. Ele não voltará para os Dursley. Mas você há de convir que isso soa muito mal para o público em geral, meu caro. O Menino-Que-Sobreviveu, Harry Potter, morando com um lobisomem... Há tantas famílias bruxas que poderiam acomodá-lo, e ficariam felizes em fazê-lo. Os Weasley, por exemplo...
– Vá para o inferno, Albus! – estourou Remus. – Logo você, falando em opinião pública e aparências. E não vou dar meu filho para nenhuma família bruxa, por mais que eu goste de Arthur e Molly! Ele é meu!
Nesse momento, os dois foram interrompidos pela entrada de Severus Snape. Remus notou como ele estava mal-humorado:
– Ainda bem que eu convenci o garoto a ir dormir nas masmorras! A gritaria entre vocês dois o teria deixado acordado!
Remus só elevou a voz:
– Você o deixou sozinho nas masmorras?
– Ele está dormindo, com um feitiço monitorando seu sono. Se ele acordar, eu saberei.
– Você conseguiu convencê-lo a dormir? Ele não estava nada inclinado a dormir.
– Fizemos um trato. Ele prometeu que iria dormir se eu fizesse uma promessa.
– O que você prometeu?
– Isso é entre mim e o garoto.
Remus franziu o cenho. Severus ergueu uma sobrancelha, desafiando-o.
– Você parece ter criado uma interação e tanto com o pequeno Harry, Severus – sorriu Dumbledore. – Ele se mostrou bem seguro com você, a ponto de concordar deixar Remus.
A voz do diretor destilava segundas intenções. Percebendo que algo estava para acontecer, Severus ergueu uma sobrancelha.
– Sim, suponho que sim, diretor.
– Então talvez você faça a gentileza de satisfazer a vontade de um velho bruxo e ouvir a minha proposta.
Remus e Severus perguntaram ao mesmo tempo:
– *Que* proposta?
Capítulo 9 – O único jeito de pelar um gato
Como não podia deixar de ser, a reação foi imediata. Os dois homens começaram a protestar ao mesmo tempo, e o berreiro foi tamanho que Dumbledore teve que erguer a voz:
– Senhores, contenham-se!
Remus e Severus se calaram. Por exatos cinco segundos.
– Como espera que eu simplesmente aceite isso?! É minha vida!
– Eu odeio crianças, Albus – lembrou Severus. – Isso é mais do que notório. Pode perguntar a qualquer um dos meus alunos.
– Isso não impede que você ajude na criação de Harry. O menino gosta de você, e pude perceber que ele se sente seguro a seu lado, Severus.
– Quero que pare com isso agora mesmo! – irritou-se Remus. – Pare de dizer como devo criar o *meu* filho!
– Remus, meu rapaz, eu pensei que você tivesse superado as tolas brigas de meninice com Severus...
– Não tente pôr a culpa em Severus! Ele não tem nada com isso! É coisa de sua cabeça!
– Mas, Remus, pense nas vantagens – continuou Dumbledore. – Ser um pai solteiro não é fácil, mesmo hoje em dia. Você terá um emprego, o que correntemente não tem. Você terá horários flexíveis para cuidar de Harry. O menino estará protegido, muito mais do que no Mundo Muggle. Você também pode receber cuidados médicos para a sua condição.
– Está tentando controlar a minha vida e a de Harry! – acusou Remus.
Severus concordava com a acusação, em gênero, número e grau. A proposta de Albus era indecorosa nesse ponto, mal disfarçando sua intenção de vigiar e controlar o garoto. Na opinião de Severus, isso era um flagrante desrespeito à vontade de Remus como pai.
– Estou tentando apenas deixar você e Harry em segurança. Houve muita gente, na Ordem, que achava que você era um risco de segurança. Isso foi passado. Gostaria de dizer, porém, que hoje os lobisomens são vistos de modo diferente. Estamos a poucos anos do fim do milênio, em plenos anos 80, mas o preconceito...
– Sim, eu logo imaginei que você iria mencionar esse fato. Interessante, já que você quer deixar o menino tendo um Death Eater como babá. – Ele se virou para Severus: – Sem ofensa, Severus.
– É razoável presumir que as pessoas temeriam pela criança. – Dumbledore apressou-se a acrescentar: – Estou apenas reproduzindo temores alheios, Remus, não os meus.
Remus literalmente rosnou. Severus disfarçou um riso, mas no fundo ele também gostaria de dar uma rosnada para Dumbledore.
– Mas vocês não precisam resolver isso agora – completou Dumbledore. – Podem levar alguns dias para responder. Conversem entre si. Perguntem a Harry. Tenho certeza de que podemos chegar a uma solução satisfatória.
Severus mordeu a língua. Tudo que ele fizera tinha sido localizar o menino. De repente ele tinha sido elevado à categoria de co-tutor do filho de James Potter, a esperança do Mundo Bruxo, o Garoto-Que-Sobreviveu!...
– Se você desejar passar alguns dias aqui, Remus, por favor, seja meu convidado. Mas podemos falar disso amanhã de manhã, talvez durante o café.
– Café? Acha que vou passar a noite em Hogwarts?
– Ora, meu caro Remus, não acha que eu vou deixar você sair daqui a essa hora, com uma criança pequena que já está dormindo confortavelmente, acha? Você vai dormir aqui, claro.
Severus concordou, e, lançando um olhar para Remus, deu a entender que isso era lógico. Passar a noite ali era simplesmente natural. O lobisomem pareceu ceder.
– Severus – indagou Remus –, onde está Harry? Eu vou dormir com ele.
– Eu o coloquei nos meus aposentos. – Severus explicou. – As proteções são extremamente confiáveis, e o garoto está seguro.
– Ele está dormindo? Tem certeza que está mesmo dormindo?
– Eu fiquei com ele até ele adormecer.
– E ele dormiu rápido?
– Extremamente. Não chegamos nem à segunda parte da historinha.
Remus piscou. Só depois ele quis confirmar o que tinha ouvido:
– Você... você contou uma historinha para ele?
Severus recusou-se a reagir:
– Ele pediu, e eu achei razoável atender ao pedido.
Os olhos de Dumbledore brilhavam furiosamente. Remus continuou o interrogatório:
– E que história você contou para ele?
– Ele pediu a do Capitão Gancho com Peter Pan. Como eu não me lembrava do final, resolvi não me arriscar, e contei outra: "A História da Lebre que Perdeu seus Óculos".
– Hm, essa eu não conheço.
– Confesso não ter ouvido antes tampouco – acrescentou Dumbledore, com um sorriso inocente.
– Bom, eu não inventei! – irritou-se Severus. – É uma historinha... de fundo filosófico.
– Espero que saiba no que você se meteu – observou Remus, divertido. – Harry vai exigir ouvir o fim dela, você sabe. Vou dizer a ele que venha falar com você.
– Podemos combinar isso, se preferir.
– Excelente! – disse Dumbledore. – Agora sugiro que todos nós nos recolhamos. Severus, podia tratar das acomodações para Remus?
– Não se preocupe, diretor. Já está tudo arranjado. Tenha uma boa noite.
– Boa noite – desejou Remus, cuja raiva tinha se aplacado um pouco ao imaginar Severus contando uma historinha para Harry Potter.
Severus indicou o caminho, e os dois começaram a descer até as masmorras no castelo vazio. Severus quebrou o silêncio:
– A proposta de Albus me pareceu francamente insultuosa. Mesmo que eu não estivesse incluído nessa proposta absurda, eu teria me indignado.
– Agradeço por isso, Severus – disse Remus sinceramente. – Dessa vez, Albus passou dos limites.
– Concordo. Na cabeça dele, ter você e Harry morando aqui em Hogwarts seria muito vantajoso.
Remus confessou:
– Devo admitir que seria vantajoso também para mim. Eu poderia trabalhar tranqüilo, sem me preocupar com pegar Harry na escola. Se ele estudasse em Hogsmeade, e eu trabalhando em Hogwarts, tudo seria muito fácil.
– A audácia de Albus!... Tentando me incluir no seu projeto bizarro e insano!...
– Sei que não gosta de crianças, Severus, mas Harry parece realmente gostar de você. Se ele confiou em você o suficiente para dormir nos seus aposentos...
– Harry parece ser um garoto curioso e inteligente. Ele só ficou um tanto ressabiado para trocar de roupa.
– Trocar de roupa? Por que ele trocou de roupa?
– Ora, eu transfigurei uma pequena camisola para ele. – Severus justificou, olhando Remus. – Ele não trouxe uma muda de roupa, então fui obrigado a improvisar. Você deveria ter previsto que ele precisaria de uma, aliás. Um bom pai tem que ter essas previsões.
– Bom, desculpe-me por não ser previdente. Eu só sou pai dele há seis semanas. Recuso-me a me sentir culpado.
– Humpf – fez Severus.
– Sei que vou me repetir, mas Harry parece mesmo gostar de você. E, pelo que contou, você tem jeito com crianças.
– Talvez o garoto seja um caso à parte. – Severus parou em frente a uma das tapeçarias e desfez as proteções. – Chegamos.
A porta se abriu para o dono dos aposentos, e Remus entrou. Severus usou a varinha para acender a tocha. O lugar era simples e praticamente espartano, se não fosse a pilha de papéis e pergaminhos em cima da grande escrivaninha.
– O quarto fica naquela porta à esquerda. No armário, tem camisolas, se você também quiser usar uma das minhas.
– Você colocou Harry na sua cama? – Remus se espantou.
– É claro. Eu não ia me arriscar a deixá-lo dormindo no sofá. Ele poderia cair no chão. Crianças se mexem terrivelmente quando dormem. – Severus conjurou um lençol e começou a ajeitar o sofá. – Estarei aqui, se Harry precisar de qualquer coisa. Pode me acordar.
– Obrigado. Boa noite, então.
Severus resolveu dormir apenas com calças e sem camisa. Enfiou-se debaixo das cobertas conjuradas e ajeitou-se no sofá o melhor que pôde.
Capítulo 10 – A História da Lebre que Perdeu Seus Óculos
No meio da noite, o alerta soou, acordando-o. Em menos de quinze segundos, Severus tinha pulado do sofá e invadido seu próprio quarto, varinha em riste.
Ele viu Remus na sua cama, abraçado a Harry, que soluçava em seus braços. O lobisomem não parou de acariciar o menino, mas olhou para Severus e cochichou:
– Pesadelo. Está tudo bem, Harry. Eu estou aqui, e não vou deixar seu tio chegar perto de você.
– Eu não quero voltar para a casa da tia Petúnia... – choramingava o menino, que não acordara totalmente.
– Você não vai voltar para lá nunca mais, Harry – garantia Remus, abraçando-o. – Prometo que não.
Severus indagou:
– Você gostaria de dar uma poção a ele? Eu tenho algumas que serviriam.
Antes que Remus respondesse, o garoto se virou para Severus:
– Poção? – repetiu Harry, enxugando as lágrimas. – Uma poção bruxa?
– Isso mesmo, Harry. Severus é um bruxo, como eu e você, e ele é muito bom com poções. Ele dá aula sobre como fazer poções.
– Puxa. – A curiosidade do garoto estava a mil. – Eu nunca vi uma poção.
– Amanhã a gente pode visitar o laboratório de Severus, onde ele tem os caldeirões para fazer as poções.
Harry arregalou os olhos, encarando Severus com admiração:
– Caldeirões? Puxa! Eu quero ver.
Severus advertiu:
– Precisa tomar muito cuidado e não mexer em nada. Um laboratório de Poções é muito perigoso, não é lugar para brincadeiras.
– Está bom, Severus. – Harry de repente arregalou os olhos. – Quero dizer, Prof. Snape.
– Muito bem.
Remus percebeu que o menino estava totalmente acordado e dificilmente voltaria a dormir. Ele disse:
– Severus me disse que você gostou da historinha que ele contou antes de dormir.
– É, eu gostei. Mas eu não ouvi o final. A Lebre achou os óculos?
Severus se ofereceu:
– Gostaria de ouvir o final agora?
– Sim, por favor. – Harry se aninhou mais a Remus, dando lugar a Severus para sentar na cama. – Fica aqui.
– Muito bem, então. Você quer ouvir tudo até o final e depois dormir?
– Quero.
– E não precisa ir ao banheiro antes? Depois que eu começar a contar a historinha, não gosto de ser interrompido.
– Tá bom. – Harry desceu da cama, e o camisolão preto que Severus tinha encolhido para ele estava todo amassado. – Onde é o banheiro?
– À direita. Precisa de ajuda?
– Não, obrigado.
O menino foi-se, e Severus aproveitou a ausência dele para comentar:
– Aceso para esta hora da noite, não?
– Sim. Não é comum. Ele está excitado com tudo.
– Então não tem chance que ele durma rapidamente?
– Acho muito difícil. – Remus deu um risinho. – Você vai ter que achar os óculos dessa Lebre.
Nesse minuto, ouviu-se um grito dentro do banheiro. Mas antes que tanto Severus quanto Remus reagissem, Harry saiu correndo de lá dentro, um sorriso maravilhado estampado no rosto:
– Nem precisei dar descarga! O xixi sumiu!
Severus franziu o cenho. Obviamente, tão cedo o menino não iria voltar a dormir.
Remus achou aquilo adorável, e chamou-o de volta para a cama:
– É o jeito mágico.
– Muito legal! Xixi que some! – Harry pulou para cima da cama e ajeitou-se no colo de Remus, completamente fascinado. – Pronto. Pode começar. Por favor, podia começar do comecinho? Papai Remus não ouviu antes.
– Está bem. – Severus começou. – "A Coruja adorava descansar em silêncio, quando ninguém olhava. Um dia, a Coruja estava sentada em cima de uma cerca e ficou surpresa quando viu um Canguru passar por ali. Bom, isso não é estranho, mas aí a Coruja ouviu o Canguru sussurrar: 'A Lebre perdeu seus óculos'".
– Não, assim não – pediu Harry, interrompendo a narrativa. – Faz as vozes.
– As vozes? – repetiu Remus.
– As vozes da Coruja, do Canguru! Ele faz tão bem!
Remus encarou Severus com um sorriso. O mestre de Poções olhou para o teto e concordou, sem disfarçar seu contragosto:
– Está bem. Mas precisa prometer não interromper mais.
– Tá – fez o menino, os olhinhos verdes brilhando de excitação. – Desculpe, Prof. Snape.
E Severus começou a "fazer as vozes".
Remus Lupin era uma pessoa de instintos aguçados. Contudo, ele não precisaria ser uma, para notar o fascínio que a interpretação de Severus da historinha exercia sobre Harry. Era evidente, no brilho dos olhos do garoto, o quanto ele estava seduzido pela voz de Severus, interpretando os diversos animais da historinha, que tinham se reunido para ajudar a amiga Lebre, que nada enxergava sem seus óculos perdidos.
Mesmo sem querer admitir em voz alta, Remus sabia que a voz de Severus realmente era capaz de hipnotizar qualquer um. Harry não estaria imune a esse efeito. Aliás, Remus estava sofrendo outros efeitos com a voz de Severus. Efeitos que ele não sentia há mais de dez anos.
Na época em que os dois eram alunos, Remus tinha nutrido uma grande paixão por Severus. Contudo, ele jamais demonstrara coisa alguma, devido ao medo de perder seus amigos, especialmente Sirius. James também seria um obstáculo.
Não pela primeira vez, Remus sentiu um amargor de arrependimento no peito. Se ele tivesse aprendido, naquela época, a se impor sobre seus companheiros, certamente o episódio do Shrieking Shack teria tido outro final. Severus (que já não o via com bons olhos por causa dos seus amigos) passara a odiá-lo frontalmente depois do ocorrido.
Se pudesse voltar no tempo, Remus gostaria de apagar esse incidente de sua vida. Nem mesmo a mordida do malvado lobisomem que o infectara com a licantropia doera tanto quanto o ódio de Severus. Remus jamais esquecera aquela paixão, nem achara que tinha sido apenas uma coisinha sem importância de adolescente. No fundo, Remus tinha a esperança de que aquilo um dia poderia florescer e ser bastante significativo em sua vida. Afinal, o lobisomem não era de dedicar afeições a qualquer um. Sempre reservado, Remus tinha tido uns poucos namorados, mas sempre guardara um lugar especial para Severus dentro de seu coração. Lobos eram, afinal de contas, monógamos.
Naquele momento, mais do que nunca, Remus sentiu dor genuína. Pois seus amigos o apoiaram, sim, mas no fim, quando precisaram de um suspeito de ser traidor, ele tinha sido o escolhido. Por ter uma doença incurável, por ser pobre, por ser um bruxo de categoria inferior, ele foi considerado suspeito. E, na verdade, o traidor era um rapaz rico, bonito e de boa família, Sirius Black.
Todas essas coisas lhe passaram ao mesmo tempo em sua cabeça durante a animada narração de Severus sobre a História da Lebre que Perdera seus Óculos (*). Tão envolvido estava Remus em examinar seus sentimentos que perdeu toda a narrativa. Ele só se deu conta de que a historinha terminara quando Harry soltou uma risada alta:
– Que lebre esperta! Os outros não sabiam nada de óculos, não é, Papai Remus?
Ele tentou disfarçar:
– Aparentemente, não sabiam. Você gostou da história?
– Gostei muito.
– Então agradeça Severus por ter contado essa história tão bonita e vamos dormir. Já está muito tarde para menininhos de seis anos estarem acordados.
– Mas eu não estou com sono!
– Harry, você precisa dormir. Está mais do que na hora.
Algo no tom de voz de Remus fez Harry simplesmente empalidecer e abraçá-lo. Na verdade, Harry o agarrou como se fosse perdê-lo.
– Sim, Papai Remus. – O menino tremia. – Eu vou dormir, mas não me mande embora. Por favor, não me mande embora.
Remus se espantou, abraçando Harry. Severus ergueu uma sobrancelha.
– Harry? De onde você tirou essa idéia de que eu vou mandá-lo embora?
O menino já tinha os olhinhos cheios de água:
– Eu vou ser bonzinho, Papai Remus. Não vou mais discutir com você.
Severus fechou os olhos, tentando conter sua ira. Os Dursley jamais tinham demonstrado qualquer afeição pelo garoto, minando sua auto-estima. Harry achava que, se fosse mau ou fizesse alguma coisa errada, ele não mereceria mais o amor de Remus, que deixaria de amá-lo e não iria mais querer ser seu pai.
Severus reconhecia esse padrão porque ele mesmo tinha entrado nele quando pequeno. Achava que, se fosse bonzinho, seu pai Tobias deixaria de bater nele e em sua mãe Eileen. O pequeno Severus tinha crescido achando que era muito mau, e, por este motivo, não merecia ser amado. O Severus adulto também não tinha muita certeza de que merecia amor de alguém. Especialmente depois de ter caído na armadilha de Lord Voldemort. Ele procurara afeição, mas o Lord das Trevas só o jogara em mais trevas.
Mas Harry não era como ele. Harry podia se sentir amado, porque ele *era* amado. Portanto, Severus tentou reassegurar o menino:
– Harry, seu pai só quer o melhor para você. Às vezes ele vai ser chato e falar coisas que você não gosta. Mas ele faz isso porque ele ama você. Isso não quer dizer que você é mau garoto nem que ele vai mandar você embora. Seu pai pode até ficar bravo com você, mas ele nunca vai deixar de amar você. Ele é seu pai.
As palavras de Severus fizeram Harry olhar para ele, um soluço escapando, embora ele não olhasse para Remus, os olhinhos rasos d’água. Severus completou:
– Não se esqueça de que ele o escolheu. Ele o tirou da casa de seus tios porque eles não gostavam de você e faziam mal a você. Seu Papai Remus gosta muito de você, Harry.
Harry olhou para Severus:
– E não vai me mandar embora?
– Não vai. Ele prometeu, não foi?
– Foi.
– E ele já quebrou alguma promessa que fez a você?
O garoto pareceu considerar a perguntar. Depois de uns segundos, respondeu:
– Não.
– Então, sugiro que acredite em seu pai e vá dormir. Essa festinha noturna não é apropriada para alguém de sua idade.
– Tá. – Harry se soltou de Remus e se abraçou a Severus antes que ele pudesse reagir. – Boa noite, Severus. Obrigado pela história da Lebre.
– Boa noite, Sr. Potter. Não precisa agradecer pela história.
Você também pode ouvir "The Story of the Hare who Lost His Spectacles" no mp3 disponível aqui.
Capítulo 11 – O calor de sua mão
– Você acorda cedo.
Severus se virou, surpreso ao ouvir a voz de Remus logo de manhãzinha.
– Você também. E Harry?
– Dormindo. Vou deixá-lo dormir um pouco mais por causa da agitação de ontem à noite.
– Não quis dormir mais um pouco também?
– Não dormi – confessou Remus. – Muito o que pensar.
– Mesmo?
– Pois é. Eu fiquei impressionado com você ontem à noite.
Severus ergueu uma sobrancelha:
– A ponto de não dormir?
– Talvez. Para alguém que diz que odeia criança, você demonstrou ter muito jeito com Harry.
– Ele é um menino especial – argumentou Severus. – Filho de Lily.
– Impossível não se lembrar de Lily quando ele olha para gente com aqueles olhos. – Remus sorriu, e depois chegou perto de Severus. – Eu... queria agradecer. Por ontem à noite.
– Primeiro Harry, agora você. Francamente, é apenas uma historieta.
– Você sabe que não estou falando disso. Harry... – Remus teve que se segurar para a voz não falhar. – Harry é tão frágil às vezes. E tão forte. Eu tenho medo de não saber lidar com ele.
Severus o encarou. Remus nunca lhe pareceu tão vulnerável. Tão adorável. Mas ele afastou aqueles pensamentos e disse, apenas:
– Você está indo muito bem. Acredite.
– De qualquer modo, agradeço a ajuda que deu ontem. Eu às vezes não acredito no dano que aqueles Muggles fizeram com ele. Ele pode ser um campo minado emocional. A gente às vezes pisa no lugar errado, e uma bomba detona onde a gente menos espera.
– Tenho me defrontado com alguns casos parecidos com o de Harry entre meus alunos. Felizmente, ele é muito pequeno e, portanto, tem grandes chances de reverter isso.
– Você o ajudou bastante. Por isso eu queria lhe fazer uma perguntar, mas confesso temer sua reação.
– Que quer dizer?
– Quero dizer que, se eu por um acaso decidir aceitar a oferta de Dumbledore, posso contar com você para eventualmente tomar conta de Harry?
Severus se virou para ele, surpreso:
– Pretende aceitar a oferta do diretor?
– Estou fortemente tentado a aceitar, Severus. Não quero me sentir cedendo às exigências de Dumbledore, mas preciso reconhecer que as condições são extremamente vantajosas para Harry.
– Por isso é que o Prof. Dumbledore as ofereceu. Você sabe que ele não costuma planejar ser contrariado.
– Sim, ele é excelente estrategista. Raramente joga para perder. Ainda preciso falar com Harry, claro. Ele pode não querer morar em Hogwarts.
– Sim, é verdade.
– Mas se ele quiser, você gostaria de ajudar a olhá-lo, eventualmente?
– Claro. – Severus recolheu os lençóis, dobrando-os. – Eventualmente.
– Obrigado. E, er, eventualmente, você aceitaria sair comigo?
Severus deixou cair a roupa de cama que estava carregando. Remus se precipitou em ajudá-lo a juntar. Eles ficaram perto, muito perto. Severus olhou os olhos do lobisomem, mas não usou Legilimência. Apenas viu sinceridade nos olhos castanhos.
– Por quê?
– Por que o quê?
– Por que está me convidando?
– Porque eu gosto de sua companhia. Queria ter mais dela. Se você quiser, claro.
Severus preferiu não dizer coisa alguma, só encarou Remus. Ele enxergava sinceridade no lobisomem, mas ainda assim o mestre de Poções estava desconfiado.
– Por que isso subitamente? Posso imaginar que seja alguma espécie de brincadeira. Considerando o histórico entre nós, é lógico supor algo assim.
– Eu entendo, Severus, mas garanto que não se trata disso. – Remus suspirou. – Se você soubesse o quanto eu me arrependo de algumas das minhas atitudes quando éramos colegas...
– Você poderia ter escolhido melhor suas amizades – admitiu Severus. – E eu também, reconheço.
– Sabe que eu já gostava de sua companhia naquela época?
Aquilo fez Severus encará-lo com ainda mais cuidado. Nada indicava que Remus estivesse mentindo, mas Severus tinha dificuldade em confiar nele.
– Você vai me perdoar se eu tiver dificuldade em acreditar nisso.
Remus deu um sorriso, mas Severus reconheceu uma profunda tristeza em seu rosto.
– Claro. Eu entendo. Se quiser esquecer isso, também vou entender.
– Não – Severus disse, num impulso, e viu o lobisomem reagir com esperança. – Não, mas talvez possamos ir devagar. Afinal, você está ocupado. Harry precisa de muita atenção no momento.
– Você tem razão. Aliás, talvez seja bom acordar o rapazinho.
Na verdade, quando Remus foi acordá-lo, Harry já tinha saído do banheiro e estava procurando suas roupas para vestir.
– Desculpe, Papai Remus, mas não tinha escova para eu escovar os dentes.
– Não se preocupe, Harry. Você dormiu bem?
– Dormi. – O menino foi para a ante-sala e se atirou nos braços de Severus. – Bom-dia, Prof. Snape!
– Bom dia, Sr. Potter. Calculo que tenha dormido bem.
– Foi sim. Você mora aqui?
– Isso mesmo.
– Que legal! – Ele olhou em volta. – As paredes são de pedra!
– Gostaria de ver o laboratório?
– De Poções? Puxa, quero, sim!
– Já sabe que não pode mexer em coisa alguma, não sabe? Alguns daqueles ingredientes podem ser perigosos.
– Posso ir junto com vocês? Nunca vi o laboratório particular do professor de Poções.
– Então vamos.
Harry ficou maravilhado. Ele olhava os diferentes caldeirões, pequenos, grandes, de bronze, de metal, de estanho, e até um de ouro. Perguntava o nome de ingredientes, e admirou-se quando viu que existiam coisas como asas de morcego, rabos de salamandra e sangue de dragão.
O trio subiu para o café da manhã, e finalmente Harry olhava à sua volta, muito diferente da noite passada, quando estava muito chateado para prestar atenção. Ele viu os quadros que se mexiam, as armaduras medievais, as escadas que não ficavam quietas. Ia perguntando tudo, e fez ainda mais perguntas quando Severus e Remus tentavam explicar o sistema de Casas, e como tudo funcionava na escola.
Logo eles chegaram ao Salão Principal, e encontraram o Prof. Dumbledore, que os esperava com um largo sorriso.
– Bem-vindos! Eu já ia mandar o aviso de que o café ia ser servido. Parece que dormiram todos bem!
– Harry dormiu muito bem, diretor. Acordou um pouco tarde.
– Excelente, excelente. Podemos nos sentar, então.
Eles se ajeitaram na mesa dos professores, uma cadeira especial para Harry não ficar muito longe da mesa, ao lado de seu pai. O Prof. Dumbledore indagou:
– Que tal, Harry? O que achou do castelo?
– Legal.
– Na verdade, Prof. Dumbledore – disse Remus –, esperava obter sua permissão para mostrar Hogwarts a Harry hoje, antes de conversarmos sobre a sua proposta.
– Ótima idéia, meu rapaz, ótima idéia. Estou certo de que o jovem Harry vai apreciar a visita. Aliás, sugiro uma visita a Hagrid, depois das estufas de Herbologia. Ele vai gostar muito de ver o menino.
Harry ficou olhando o velho professor e sentiu que ele não queria mais separá-lo de seu Papai Remus. Isso acalmou muito o garoto, que soltou uma exclamação quando a comida apareceu no prato.
Depois do café, Harry viu Papai Remus combinar com o Prof. Dumbledore uma reunião para a hora do almoço, e Severus se despediu. Harry se espantou:
– Você não vem, Sev – er, Prof. Snape?
– Lamento, Harry. Outros deveres me chamam.
– Pena, Severus – comentou Remus. – Queríamos chamá-lo para passear conosco. Pretende ficar para o almoço?
Severus ia dizer que não, mas os olhinhos de Harry pediam que ficasse. Então, respondeu:
– Com certeza. Nós nos vemos lá.
Harry se abraçou de novo a ele:
– Tchau, Sev– quer dizer, Prof. Snape.
Remus olhou como Harry tinha rapidamente se apegado a Severus. Isso certamente ajudava seus planos de seduzir o mestre de Poções. Sim, pois, após a conversa antes do café, Remus tinha formulado esse plano: conquistar o arisco Slytherin. Ele não queria usar Harry para isso, mas de uma forma fortuita Harry já estava ajudando.
Capítulo 12 – Por que o velho cão uiva triste
Remus podia perceber que Harry jamais esqueceria aquela visita. Realmente, aos olhos de uma criança, Hogwarts era ainda mais cheio de magia do que para um adulto. Ele perguntava de tudo, ainda mais do que o habitual de sua curiosidade.
Felizmente os Dursley não conseguiram tirar isso do menino, pensou, sorrindo.
– Ó de casa! – ele gritou, em frente à cabana.
Um latido veio do lado de dentro da casa, e Harry perguntou:
– Tem um cachorro?
– Hagrid gosta de tudo quanto é tipo de animal. Ele sempre tem alguns bem interessantes. Você não tem medo, tem?
Harry abanou a cabeça, mas todo o seu corpo dizia o contrário.
O vozeirão gritou:
– Cala a boca, Fang, seu grandalhão imprestável!
Então a porta se abriu, e Harry deu de cara com a maior pessoa que já tinha visto em toda a sua vida. Instintivamente, ele se aproximou de Papai Remus. O homem imenso, de cabelão, barba e bigode olhou para eles:
– Sim?
– Olá, Hagrid. Lembra-se de mim? Remus Lupin.
– Remus! – Eles se abraçaram. – Quanto tempo, meu jovem! Você andou sumido uns tempos, pelo que ouvi.
– Sim, fui morar no Continente. Mas agora voltei, e quero que você veja alguém. Hagrid, meu filho, Harry Potter. Harry, esse é Rubeus Hagrid, de quem falei. Ele é guarda-chaves e guarda-caça de Hogwarts.
O homem enorme se abaixou e olhou para Harry com um sorriso que parecia lhe partir a cara ao meio:
– Esse é Harry? O pequeno Harry, de James e Lily Potter? Cáspite! A última vez que eu vi você, rapazinho, você era deste tamanhozinho! – Ele mostrou a distância com as mãos, e Harry achou que ele estava brincando.
– Oh, mas onde estão meus modos? Vamos entrar, vamos entrar!
Ele deixou os dois passarem para dentro da cabana, e Harry não parava de olhar tudo em volta. Havia milhões de coisas fascinantes dentro da cabana, incluindo um cachorrão deitado numa poltrona, um tão grande que fez Harry se agarrar às calças de seu Papai Remus.
Hagrid notou o temor do menino e adiantou:
– Não se preocupe com Fang. Não só não faz mal a uma mosca como é muito covarde. Você pode brincar com ele, Harry.
Mas Harry ainda estava intimidado com o tamanho do cachorro. Remus se sentou numa das grandes poltronas e Harry ficou agarradinho a ele, de olho em Fang. Hagrid observou:
– Ele realmente é muito apegado a você, Remus. Eu até pensei ter ouvido você dizer que ele é seu filho.
– Mas ele é meu filho, agora. Eu o adotei.
– Não diga! Isso é fantástico! Como você conseguiu? E os Muggles tios de Harry? Criaram muito problema?
– Não mesmo. Eles nunca quiseram Harry. Parecem mais felizes agora. Harry também.
– Ah, isso é muito bom. Então, Harry? Visitando Hogwarts?
O garoto apenas assentiu com a cabeça, tímido.
– Fomos convidados pelo Prof. Dumbledore – respondeu Remus. – Ele ficou preocupado com o bem-estar de Harry quando ele saiu da casa dos tios e quis vê-lo por si mesmo.
Sem prestar atenção na conversa dos adultos, Harry tinha os olhos grudados em Fang, e Hagrid o incentivou de novo:
– Harry, pode acariciá-lo, se quiser.
O menino obedeceu, e o cachorro preguiçoso ficou ainda mais lânguido diante das carícias. Hagrid indagou:
– Você gosta de cães, Harry?
– Sim. Eu queria ter um cachorro preto bem grande para brincar. Eu sempre gostei de cachorros grandes e pretos.
Remus empalideceu e trocou um olhar com Hagrid. O gigante continuou a brincar com Harry. Aos poucos, o menino foi se soltando mais e olhando as inúmeras atrações da cabana do meio-gigante.
Mais tarde, os dois foram ao lago, e Harry quase não acreditou que houvesse uma lula gigante morando lá. De longe, Remus mostrou a quadra de Quidditch, e depois perguntou:
– Está gostando de Hogwarts?
– Muito! – sorriu Harry. – Aqui é muito legal. Pena que vamos ter que voltar para casa logo.
– Harry, o que você diria se eu lhe dissesse que o Prof. Dumbledore nos convidou para ficar aqui?
– Ficar? Em Hogwarts?
– Isso mesmo.
– Mas eu não posso ficar aqui. Você disse que só criança grande estuda em Hogwarts.
– Tem uma cidadezinha aqui perto, chamada Hogsmeade. Ali tem uma escola para crianças mais novas, que ainda não têm idade para estudar em Hogwarts. Você gostaria de ir lá agora?
– Está bem.
– Vamos pegar um atalho. Acho que você vai adorar isso.
E Harry realmente adorou. Primeiro porque era um segredo, algo que era mais excitante do que mágica para uma criança de seis anos. O segredo envolvia uma árvore muito temperamental, o Salgueiro Lutador. Harry ficou ainda mais admirado quando Papai Remus apertou um nó dos galhos e a árvore ficou imóvel. Depois os dois entraram dentro da árvore, num túnel muito bacana como os da terra do Peter Pan, e saíram numa casa mal-assombrada chamada Casa dos Gritos.
Era uma aventura e tanto, e Harry se sentiu dentro de um livro de histórias. Sempre de mãos dadas com Papai Remus, ele andou pelas ruas da vila bruxa chamada Hogsmeade, e viu uma loja de doces linda, cheia de balas e pirulitos coloridos. Papai Remus levou-o para dentro e comprou alguns doces, mas disse que era para depois do almoço.
Lá tinha também uma pequena escola, que ficava justamente no caminho para Hogwarts, depois da estação do trem. Papai Remus foi à escola, que ainda estava fechada para aulas, mas tinha gente ali, e enquanto Papai Remus falava com os adultos, Harry recebeu permissão para conhecer a escola sozinho, desde que não saísse do local. Foi o que fez. O curioso garoto olhou em volta. A escola era uma casa antiga e não era muito grande, então não devia ter muitos alunos. Mas tinha um pátio espaçoso e uma pequena quadra de Quidditch. Harry reconheceu os três postes com as argolas, só que de altura muito mais baixa do que os que ele tinha visto em Hogwarts.
Ele ia adorar aquela escola, ele sabia disso.
Os dois voltaram a pé para a escola de magia, subindo a pequena colina que ia dar nos grandes portões na entrada da escola.
– Aquela é minha nova escola?
– Se a gente vier morar em Hogwarts, você vai estudar lá, sim. Você quer vir morar aqui?
– Ia ser legal, né? E aqui todo mundo é bruxo?
– Hogsmeade é a única vila totalmente bruxa de toda Grã-Bretanha. Hogwarts é uma das mais prestigiadas escolas de magia da Europa.
– E nós vamos morar lá? Com Sever– quero dizer, com Prof. Snape?
– Por que você não o chama de Severus?
– Ele não me deixa. Disse que eu devo chamá-lo de Prof. Snape.
– Não quer chamá-lo de tio Severus?
Harry baixou a cabeça:
– Não quero chamá-lo de tio. Tio é mau. Eu gosto de Severus.
– Harry, nem todo tio é igual ao seu tio Vernon.
– O Prof. Snape não é – concordou o menino. – Ele não merece ser chamado de tio. Prof. Snape é um bom nome para ele.
– Ele gosta de você.
– Eu sei. Também gosto dele. Você também gosta dele, né, Papai Remus?
– Sim, gosto dele. Se eu convidá-lo para sair conosco um dia, você se importa?
– Para a gente passear junto?
– É, ir ao zoológico, ao circo, ao parque...
– Ia ser bem legal! – Harry olhou para seu pai. – Você gosta dele, né?
– Eu já disse que sim. – Remus observou Harry com atenção. – O que quer dizer?
O menino desviou o olhar:
– Nada, não.
– Harry – falou Remus, devagar e tentando não intimidá-lo. – Você pode falar qualquer coisa para mim. Você sabe disso, não?
O garoto continuou andando e deu de ombros:
– É que... às vezes eu sei coisas... e todo mundo fica chateado comigo.
– Como você sabia que Severus não queria fazer mal, não é?
Harry assentiu com a cabeça, e Remus parou de caminhar para assegurar:
– Isso é um dom muito bonito, Harry. Não vou ficar bravo por você exercer um dom tão bonito. E isso pode ser útil, também. Assim você pode se proteger, mesmo quando eu não estiver perto, nem Severus, nem o Prof. Dumbledore. Mas às vezes as pessoas ficam surpresas, porque elas achavam que ninguém ia descobrir o segredo delas, e você pode ver isso. Então, eu sugiro que você pergunte se isso é polido antes de falar em voz alta.
– Vamos combinar, então?
Combinar era a palavra preferida dele no momento.
– Está bem, então. Combinado!
Eles apertaram as mãos solenemente. Harry achava aquilo muito adulto.
– Agora vamos nos apressar – insistiu Remus. – Combinamos de ir almoçar com o Prof. Dumbledore e Severus, e agora eles estão nos esperando.
– Temos que cumprir o combinado, né, Papai Remus?
– Trato é trato, Harry. Se você combinou, tem que cumprir.
Continua...
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