Título:
O verão glorioso
Tipo: Slash
Censura: MA (ou NC-17)
Gênero: Angst, Dark, Romance
Spoilers: Todos os 5 livros, todos os 3
filmes
Resumo: Harry passa o verão com Snape. Continuação de A prisão de Harry
Potter. Mas pode ser lido separadamente.
Beta: A grande Lilibeth, ou será Lili-beta?
Notas: Peço desculpas se alguns dos nomes estiverem no original e não na
tradução brasileira. Eu não acredito em traduzir nomes, embora eu
conscientemente acredite em alienígenas como um exercício de estatística.
Nota 2: Essa fic é uma continuação da fic de Magalud chamada A
Prisão de Harry Potter. Você não precisa ler para entender, mas eu vou
te amar se você fizer isso.
Disclaimer: Todos esses personagens são de J.K. Rowling. Por favor, não me
processe, porque eu não estou ganhando nenhum dinheiro com isso.
– Essa é sua chave de portal – Severus entregou um chaveiro que trazia uma prosaica pata de coelho – Vai servir para levar você e trazê-lo de volta. Fique atento aos horários.
– Sem problema.
– Pegou tudo?
– Eu não vou levar muita coisa.
– Tome cuidado.
– Severus, relaxe. É uma festa de aniversário. Meu aniversário, lembra?
– Nesse caso, divirta-se.
Harry sentiu um puxão no umbigo e tudo pareceu girar à sua volta, até que ele apareceu à porta da casa que mais lhe tocava o coração.
The Burrow.
– Harry! – ele ouviu a voz de Ron vinda de dentro – Você finalmente chegou!
Hermione estava logo atrás dele:
– Pensamos que Snape tinha proibido você de vir.
Eles se abraçaram efusivamente. Harry entrou na casa com um enorme sorriso nos lábios, olhando tudo à sua volta – lá estavam as maluquices dos Weasley todas juntas, e ele se sentia em casa. Era o máximo de lar que ele conhecia.
– Conte para a gente sobre a cadeia! – pediu Hermione. –Verdade que você foi para uma cela?
– Não, eu só fui interrogado.
– Meu pai acionou o Esquadrão de Reversão do Ministério – contou Ron – Foram eles que transformaram o pó de Floo em pó normal.
– Eu preciso agradecê-lo. Sem isso, eu não teria sido solto.
– A coisa não fez o menor sentido – disse Hermione – Seus tios fizeram você ser preso? Eu pensei que eles odiassem chamar atenção.
– É, mas acho que estavam mais interessados em se livrar de mim o mais rápido possível.
– E conseguiram.
– Mas como você foi parar com Snape?
Harry abriu a boca para responder sem saber direito o que ia dizer, mas para sua sorte, Molly Weasley apareceu nesse instante:
– O aniversariante já chegou! Parabéns, Harry – ela o abraçou efusivamente – Vamos, estamos todos lá atrás: é uma festa ao ar livre.
No quintal, havia uma série de pequenas mesas para os convidados, com papéis e copos coloridos. Harry notou que eles não eram descartáveis: aparentemente, a decoração festiva deles era bruxa, porque as figuras se mexiam silenciosamente. Os convidados estavam espalhados pelo quintal e gramado, alguns conversando, outros rindo alto. Harry imediatamente localizou Mr. Weasley conversando com Remus, enquanto Bill, Fred e George trocavam socos amigáveis. Afastados, agachados num canteiro, Luna e Neville pareciam examinar uma planta. Ginny vinha da cozinha, trazendo uma bandeja e abriu um sorriso quando viu Ron, Harry e Hermione entrando no quintal.
– Harry! Feliz aniversário – A única irmã Weasley o abraçou – Nossa, você está até com uma corzinha! Andou pegando sol?
Harry ficou vermelho e assentiu:
– Eu tenho trabalhado num jardim.
– Num jardim? – Ron riu – Snape não está deixando você trancado numa masmorra?
Harry deu um meio sorriso, imaginando que seus amigos pensavam que Snape fosse uma espécie de demônio encarnado.
– Não. Eu não tenho feito muita coisa, mas pelo menos não estou trancado numa masmorra. Ou no meu quarto, o que provavelmente estaria acontecendo se eu estivesse com meus tios.
– O Prof. Dumbledore disse que o local onde você está é tão escondido que nem as corujas conseguem chegar – disse Hermione – Eu tentei umas três vezes e não deu certo.
Aquilo lembrou Harry:
– Ron, como está Hedwig?
– Ela ficou meio triste, e andou saindo para procurar você. Mas logo ficou mais animadinha quando Pig praticamente a adotou como mãe substituta. Agora os dois vivem juntos.
– Que bom que ela está mais feliz. Obrigado por cuidar dela. Não sei se vou poder levá-la para a cabana.
Nesse momento Luna e Neville vieram correndo. Luna trazia um sorriso exagerado:
– É o Harry! Oi, Harry! Hoje é seu aniversário.
– Oi, Luna. Que bom ver você – ele se virou – Você também, Neville. Ontem foi o seu aniversário. Parabéns!
– Obrigado, Harry. Parabéns para você também.
Mrs. Weasley colocou um copo de suco de abóbora nas mãos de Harry, dizendo:
– Aqui, Harry. Neville, Luna, eu teria trazido para vocês também se soubesse que vocês já tinham terminado de ver minhas violáceas.
– Não tem problema, Mrs. Weasley.
Ela sorriu para Harry, satisfeita:
– Que diferença com relação àqueles Muggles! Você está corado, até parece que cresceu e engordou!
– Snape tem te alimentado, é? Isso é surpresa.
– Ron! – Hermione parecia escandalizada.
Neville comentou:
– Ron disse que você está passando o verão com o Prof. Snape – ele parecia ter criado uma admiração nova por Harry – Verdade?
– É verdade, Neville.
– E como é?
– Não é tão ruim quanto você pode pensar. Só estou num local meio isolado. Mas já fiz todos os meus deveres de verão, Hermione.
– Que bom para você, Harry!
– Olha, gente, eu vou falar com o resto, tá bom?
– Não demore – disse Ginny – Queremos jogar Quidditch antes do almoço.
Harry aproximou-se de Mr. Weasley, que ainda conversava com Remus Lupin. O licantropo ainda tinha o mesmo aspecto abatido do ano passado, as roupas com mais e novos remendos. Os dois pararam de conversar ao ver Harry se aproximando, e o chefe do clã Weasley abriu-lhe um sorriso:
– Harry, meu rapaz! Feliz aniversário! Grande data, hein? Agora você é um homem!
– Obrigado, Mr. Weasley. Olá, Remus.
– Olá, Harry – Remus deu um sorriso triste – Feliz aniversário. Você está com uma ótima aparência.
Harry gostaria de poder dizer o mesmo de Remus.
– Obrigado. Eu queria agradecer Mr. Weasley por ter ajudado a me tirar da cadeia.
– Ora, não foi nada. Eu só chamei o Esquadrão de Reversão de Mágica Acidental. Tecnicamente, não era uma mágica acidental, mas eles não conseguiram enquadrar em nenhum outro local, então foram eles mesmos que cuidaram da situação. – ele franziu o cenho – E foram seus tios que armaram tudo? Muggles horríveis. Ainda bem que você não precisa mais conviver com ele.
– Não me fazem falta, isso é verdade –admitiu Harry, com sinceridade.
– Harry – disse Lupin –, eu gostaria de dar uma palavrinha com você, se tiver um tempinho.
– Eu também quero lhe falar – disse Harry.
– Mas não agora! – disseram em uníssono Fred e George, cada um pegando Harry por um braço – Hora de Quidditch!
Mr. Weasley ralhou, sem convicção:
– Garotos! Estávamos no meio de uma conversa!
Remus sorriu:
– Deixe-os, Arthur. Eles estão falando nessa partida de Quidditch desde que eu cheguei. Deixe os meninos se divertirem.
A verdade é que por mais que Harry estivesse ansioso para falar com Remus e explicar por que não tinha ido para Grimmauld Place no verão, ele estava ainda mais ansioso por uma partida de Quidditch. Portanto, foi sem culpa que ele deixou os adultos para trás e seguiu os gêmeos no campo improvisado atrás do quintal, perto do bosque que circundava o Burrow.
Com a vassoura de Ron emprestada, Harry se divertiu imensamente voando com toda a prole Weasley presente e mais Neville – que tentava valentemente melhorar seu jogo, embora suas habilidades em cima de uma vassoura fosse apenas sofríveis. Harry sentia saudades de voar, e o fato de estar cercado por seus amigos era apenas mais ingrediente para a sua felicidade.
Depois do almoço, os adolescentes resolveram fazer um supercampeonato de duplas de Snap Explosivo, e outros adultos chegaram: Hagrid, Moody e Tonks. Depois chegou a hora dos presentes.
Harry nem tinha feito um inventário completo, mas seus presentes tinham sido ótimos esse ano. Hermione tinha lhe dado um estojo mágico para guardar penas de escrever que conservava as penas sempre em bom estado; Ron tinha lhe dado uma coleção completa de cartões com jogadores do Chudley Cannons, e os gêmeos tinham simplesmente entregado sua parte nos lucros com dividendos incluídos e a sugestão que ele atualizasse sua Firebolt, que já tinha mais de três anos. Neville tinha conseguido um exemplar raro de Defesa Avançada contra as Artes das Trevas e Luna tinha lhe dado um talismã raro da Ásia Menor capaz de afastar mau-olhado e os temíveis roncafedes-do-chifre-amassadinho. Hagrid tinha lhe dado um hipogrifo de brinquedo, que só funcionava se a pessoa fizesse uma reverência a ele. Era uma lembrança de Buckbeak, que depois da morte de Sirius, tinha sido contrabandeado para fora do país e agora estava asilado em Beauxbatons, com Madame Maxime. Para sua surpresa, até Moody tinha lhe dado um presente: um Bibilhoscópio – e não importava que ele já tivesse um; "Nunca é demais ter um por perto", disse o ex-Auror.
Harry estava se divertindo muito, como não fazia há muito tempo, e de vez em quando seu pensamento se voltava para Severus. Ele gostaria que seu professor estivesse ali. Gostaria de poder compartilhar essa alegria com ele, especialmente agora que ele já atingira a maioridade e eles poderiam conversar mais uma vez sobre uma aproximação. Harry queria muito estar com Severus.
Por outro lado, a diversão era tanta que ele não queria estragar com assuntos sérios. Ao chegar ao Burrow, ele tinha a intenção de revelar a Hermione e Ron sua preferência sexual. Mas o clima de festa, a camaradagem, o ambiente descontraído, tudo o fez desistir de seu plano inicial.
Uma segunda rodada de Snap Explosivo terminou com Ron e Hermione na frente, e era hora de trocar parceiros quando Harry ouviu uma voz suave atrás de si:
– Ocupado, Harry?
Era Remus. Imediatamente Harry se lembrou da conversa interrompida e prontificou-se.
– Não, claro que não. Neville, poderia tomar meu lugar, por favor?
Eles se afastaram do demais e Harry foi direto ao assunto:
– Remus, eu queria explicar por que não fui passar o verão com você. Não é nada pessoal, é que...
Foi interrompido:
– Não precisa dizer nada, Harry. Dumbledore me explicou tudo.
Pego de repente sem poder dizer o que tinha ensaiado, Harry se sentiu meio envergonhado:
– É? Mas... não vá pensar que é alguma coisa pessoal. Não é nada disso. Eu adoraria ter passado o verão com você, juro que sim, mas... aquela casa.
– Eu entendo. Fiquei surpreso com sua escolha de ficar com Severus, de todas as pessoas, mas entendo que não quisesse ficar na casa – ele deu um sorriso triste – E isso é quase irônico, porque é justamente sobre a casa que eu quero lhe falar.
– O que tem ela?
– Bom, hoje você completou 17 anos e atingiu a maioridade. Portanto, Grimmauld Place passou a ser sua, de acordo com a vontade expressa no testamento de Sirius.
– O quê?
– É isso mesmo. Sirius lhe deixou a casa. Era a única coisa que ele tinha para lhe deixar. Eu era o curador até você ter idade, mas agora você já é um adulto, então ela lhe pertence. Kreacher também, é claro.
Harry ficou boquiaberto.
– Eu... tenho um elfo doméstico?
– Bom, ele não é lá grande coisa como elfo, velho do que jeito que está e com aquele humor que você conhece... E nem preciso lhe dizer como seria perigoso para a Ordem liberá-lo. Bom, eu esperava convencê-lo a ir comigo à casa para colocarmos a papelada em ordem. Há alguns requerimentos burocráticos para que a casa seja legalmente sua.
Harry ainda estava meio tonto com a informação. Ele tinha ganhado uma casa!
– Eu não acredito... A casa é minha... Por que Sirius fez isso? Por que ele não deixou para você?
Remus empalideceu um pouco mais.
– Não se sabe o que o futuro pode trazer, Harry. As leis contra lobisomens podem se tornar ainda mais duras, e há uma grande chance que a casa seja confiscada se estiver em meu nome. Nesse caso, não seria de se espantar que ela passasse a outros parentes da família que estão vivos e fora de Azkaban.
Harry lembrou-se da tapeçaria e deduziu rapidamente do que Remus falava:
– Malfoy!... Ela iria parar nas mãos de Malfoy...!
– Exato.
– Tonks não teria direito à propriedade? Ela também é descendente direta da família.
– O problema é que a lei européia privilegia os descendentes masculinos.
Houve silêncio por alguns segundos, e Harry tomou uma decisão.
– Remus, eu não quero a casa. Mas também não quero que ela vá parar nas mãos de Malfoy. Não sei o que fazer.
– Olhe, você precisa completar esses trâmites burocráticos de que lhe falei antes de tomar qualquer decisão. Não precisa ser feito agora, nem vai demorar, mas seria bom providenciar isso logo.
Harry hesitou. Ele não queria olhar para a casa. Mas assentiu.
– Está bem.
– Ótimo. Vamos Aparatar até lá.
– Mas eu não tenho permissão. Ainda não, pelo menos.
– Não se preocupe, eu levo você.
– Não dava para usar uma chave de portal?
– Isso apenas nos levaria a mais burocracia. Deixe-me avisar Arthur que estamos dando um pulo lá.
O lobisomem se afastou e Harry foi até o extremo do jardim, onde Ron, Neville, Hermione e Luna estavam jogando. Ele avisou:
– Eu vou ter que sair com Remus, mas volto logo.
– Posso ir junto? – perguntou Luna.
– Er – disse Harry – vai ser chato. É melhor ficar aqui.
Adiante, Lupin chamou:
– Harry, vamos!
Ele correu até seu ex-professor.
– Agora fique bem junto de mim. Eu vou passar o braço em sua volta. Pronto? Lá vai.
Harry sentiu o estalido em todo o seu corpo, vendo o Burrow desaparecer de repente, e Ron soltar um grito inacreditável...
E de repente, ele estava ao lado de Remus, em frente à casa ancestral da família Black. O impacto daquela visão foi tamanho que sua cicatriz pôs-se a arder pronunciadamente. Ele tentava não pensar naquilo que mais estava na sua cabeça: Sirius... Sirius...
Os dois entraram silenciosamente, e Harry pensou que fosse uma tentativa de evitar um escândalo vindo do retrato de Mrs. Black, mas aí ele se lembrou que eles tinham conseguido retirar o retrato da parede. Uma coisa a menos naquela casa que Sirius tanto odiava. Harry também reparou que as cabeças de elfos empalhadas tinham sido retiradas. Remus guiou-o para o escritório. Harry notou, sentando-se junto a uma grande escrivaninha muito antiga:
– A casa está bem melhor.
– Eu tenho feito alguns trabalhos de manutenção. E limpeza. – O rosto dele tornou-se fechado – Harry, eu ainda moro aqui, e como a casa agora é sua, posso garantir que estarei me mudando semana que vem, no máximo.
Harry ficou escandalizado:
– Não! Não mesmo. Você continua morando aqui. Por favor, Remus.
– Harry, eu não quero que você se sinta obrigado a...
– Mas eu vou precisar de sua ajuda – ele disse, sinceramente – Quero que você fique administrando a casa. Eu vou para Hogwarts daqui a pouco tempo, não vou ter como cuidar da casa. Você não pode continuar como... como... curador, sei lá?
– Bom, Harry, legalmente não posso ser seu curador, porque você já tem idade. Mas posso ser nomeado administrador de seus bens, se é isso que está pensando.
– É isso mesmo! – Harry levou a mão à cicatriz – Nossa, todo esse papo legal está me dando dor de cabeça.
Mas Remus não se deixou enganar:
– Harry... Isso é mesmo dor de cabeça ou é sua cicatriz doendo?
– É minha cicatriz – respondeu ele, logo acrescentando – Mas ultimamente quase não tem doído. Eu tenho conseguido me controlar, e as aulas com Severus têm ajudado muito. Voldemort não está mais dentro da minha cabeça o tempo todo, como antes.
– E você tem alertado Severus quando isso acontece?
– Claro. Estamos numa cabana isolada, mas tem uma lareira, e Dumbledore sabe de tudo que se passa, eu tenho certeza.
Remus se virou para ele, disposto a falar alguma coisa, mas seja lá o que fosse, Harry não ouviu. O lobisomem ficou arrepiado, com a rápida transformação do rapaz. Harry de repente ficou meio esverdeado, o rosto todo crispado, e ele foi ao chão aos gritos, as mãos agarrando a cicatriz, que estava saltada e parecia ainda mais nítida do que de costume. Remus se agachou no chão, tentando se preparar para o caso de o rapaz entrar em convulsões. Harry se debatia, e Remus procurava evitar que ele se ferisse, mas estava dividido em avisar alguém o quanto antes. Por um segundo, ele se arrependeu de ter tirado Harry de sua festa. Com mais gente, com certeza Harry estaria mais amparado, mais...
Remus não concluiu seu pensamento. De repente, os olhos de Harry se abriram, arregalados, o verde deles cada vez mais intenso, mais parecido com os de Lily, e ele disse, simplesmente:
– Voldemort está atacando o Burrow!
Remus perdeu a pouca cor que tinha e Harry começou a se agitar ainda mais:
– Ele está com outros Death Eaters! Estão lutando! Temos que ir para lá!
– Calma, Harry, calma!
O menino se sentou:
– Temos que ajudá-los! Eu vi alguém no chão! Alguém de cabelos vermelhos compridos – acho que é Ginny!
Remus o ajudou a se erguer, mas segurou-lhe os ombros:
– Harry, me escute um instante: não é hora de perder a cabeça. Há pelo menos cinco membros da Ordem naquela casa, sem mencionar dois Aurors treinados. Temos que avisar Dumbledore. – ele se aproximou da lareira – Preciso que se lembre do máximo de detalhes que puder.
Mas Remus nem tinha esticado a mão para pegar o pó de Floo quando a cabeça de Albus Dumbledore apareceu no meio das chamas.
– Ah, Remus! – ele parecia agitado, e Harry espantou-se – Que bom que eu o encontrei. Acabo de receber um aviso de Alastor, pelos métodos próprios da Ordem. Ele me falou do ataque ao Burrow.
Harry se espantou que tenha sido avisado tão rápido. Como era possível?
– Já está tudo sob controle, foi muito rápido. O Ministério mandou mais Aurors para o local. Felizmente eles tiveram um alerta antes do ataque.
– Um alerta?
– O jovem Ron Weasley localizou Peter Pettigrew em forma de rato correndo pelo quintal antes da invasão. Ele avisou Alastor, que logo acionou seus contatos no Ministério. Eram cerca de uma dezena de Death Eaters, e eles encontraram pelo menos oito Aurors e cinco membros da Ordem na casa dos Weasley. Sem mencionar os membros do DA, que também se engajaram na luta, apesar dos protestos de Molly.
Harry não pôde deixar de sentir um certo orgulho ao ouvir isso. Afinal, ele tinha começado a treinar seus colegas em combate, e eles encararam o desafio magnificamente – pela segunda vez, aliás.
– Alguma baixa?
– Ferimentos leves em sete pessoas, apenas o jovem Bill Weasley sofreu ferimentos mais sérios. Arthur o levou para St. Mungo's.
– Harry viu o ataque através de Voldemort. – avisou Remus – A cicatriz dele começou a doer...
– Ele está com você, não está?
– Sim – só então Dumbledore pareceu relaxar – Viemos a Grimmauld Place por acaso, para tratar dos assuntos da casa e então...
– Continuem aí – interrompeu Dumbledore – Vou avisar Severus para buscar Harry imediatamente.
– Mas e meus amigos? – Harry protestou, adiantando-se na lareira e dirigindo-se diretamente ao velho diretor de Hogwarts – Não me despedi deles.
– Espere um pouco – Dumbledore sumiu da lareira por cerca de quinze segundos, e Harry ficou na expectativa – Não consigo encontrar Severus. Aparentemente, está mantido o plano original: Harry, você vai para a cabana de Severus usando a chave de portal na hora marcada. Remus, poderia levar Harry para o Burrow? Ele pode ficar lá até que seja hora de Severus ir buscá-lo.
– Com certeza.
– Prof. Dumbledore, eu ainda vou poder passar uma semana com os Weasley?
– Harry, o trato está mantido. Você vai passar a última semana de férias com eles. Mas terá que ser em Grimmauld Place. Isso é para sua própria segurança.
– Sim, senhor.
– Qualquer coisa, não hesite em me contatar. Severus pode ajudá-lo nisso. Ah, e feliz aniversário, Harry.
A conexão se desfez e Harry encarou Lupin desesperadamente, urgindo-o a voltar ao Burrow. Os dois Aparataram e num piscar de olhos, Harry estava de volta à casa dos Weasley.
Só que tudo estava diferente do que ele tinha deixado.
Remus e ele apareceram no quintal, onde todas as pequenas mesas estavam viradas, muitas ostentando rastros de queimaduras mágicas, pequenos objetos espalhados, um aspecto geral de devastação e um cheiro de desastre no ar. Com uma dor no coração, Harry viu Tonks e Hermione arrumando o que podiam, alguns Aurors fazendo investigação no local. Foi Hermione quem viu os dois primeiro:
– Harry!
– Mione!
Ele a abraçou, genuinamente aliviado por vê-la. Havia um pequeno corte na bochecha direita da moça, e ela estava suja de terra nos braços e ventre. Provavelmente havia se jogado no chão.
– Oh, Harry, que bom vê-lo! Prof. Lupin, o senhor também.
– Hermione, como estão todos?
– Ainda estamos muito abalados, principalmente por causa de Bill. Ele foi atacado por três deles ao mesmo tempo, estava sangrando muito...
– Como foi que isso aconteceu?
A essa altura, ao verem Harry no quintal, todos os que estavam na casa correram para fora: Ron, Luna, Ginny, Neville, os gêmeos e Mad-Eye Moody. Com exceção de Luna, todos pareciam pálidos e nervosos, Mad-Eye ainda mais do que de costume. O olho mágico dele olhava furiosamente para Lupin e Harry, como que para se certificar de que eles não eram impostores.
– Parece que você perdeu toda a diversão, rapaz.
– É, cara – disse Ron –, foi uma sorte vocês terem saído naquela hora.
– Aconteceu logo depois que vocês saíram – completou Ginny.
– Ron deu o alarme – contou Hermione – Ele viu Pettigrew correndo para o bosque, provavelmente para dar o sinal para os outros que estavam esperando lá. Ron avisou Moody, que logo acionou o Ministério. Mrs. Weasley mandou-nos para dentro da casa, mas não deu tempo. Eles atacaram muito rapidamente.
– O primeiro que eles encontraram foi Bill – lembrou Ginny, com os olhos cheios d'água – Ele conseguiu segurá-los um pouco, mas logo eles o derrubaram. Papai, Hagrid, Tonks e Moody avançaram, mas eles tinham escolhido Neville... Ele revidou e acertou um deles, mas levou uma maldição. Fred e George derrubaram o miserável que fez isso.
Harry olhou Neville. A exemplo de Hermione, ele também trazia um corte sangrando no braço, mas que aparentemente tinha estancado.
– Foi quando os Aurors começaram a Aparatar – disse Fred, que trazia manchas de sangue na roupa – Aí a confusão foi grande. Mamãe empurrou os mais novos para dentro, mas eles lutaram com ela tanto quanto contra os invasores.
Harry riu um pouco. Ele estava tremendo, vendo os fatos que eles narravam criarem vida diante de seus olhos.
– Fred e eu arrastamos Bill para trás de uma das mesas – disse George – Ele já estava desacordado e sangrando muito. Perdemos uma parte da ação por causa disso. De repente, havia três Death Eaters desacordados e dois petrificados. Não sabemos ao certo quantos escaparam.
Moody rosnou entre os dentes:
– Escaparam muitos, mesmo que tenha sido só um.
– Pettigrew? – quis saber Harry.
– Escapou – disse Hermione miseravelmente – Não estava entre os capturados, mas eles estavam encapuzados.
– Provavelmente nem fez parte do ataque – sugeriu Ron, com desprezo.
Harry perguntou:
– Então vocês não sabem quem atacou? Digo, os nomes?
– Não – respondeu Neville – Por quê?
– Ele estava entre eles – disse Harry – Voldemort.
A revelação – tanto quanto o nome – causou choque entre todos, que por uma breve pausa ficaram mudos. O silêncio foi quebrado por Hermione:
– Harry... Eles estavam procurando por você.
Agora foi a vez de Harry sentir o choque:
– O quê? Como...?
Moody foi quem esclareceu:
– Não devia ser nenhuma surpresa. Ele sabe quando é seu aniversário por causa da profecia. Mandou Pettigrew para se certificar que você estaria aqui para comemorá-lo. Pettigrew confirmou, mas ninguém estava prevendo que você e Lupin sairiam no meio da festa. Também obviamente o plano deles não previa o fato do jovem Ronald ter reconhecido seu antigo ratinho de estimação e avisado o Ministério.
Houve um silêncio pesado, e Harry sentiu um frio percorrer a espinha. Ele tinha passado o dia todo despreocupado, contente e feliz por estar entre seus amigos, e durante todo aquele tempo, Voldemort tinha planejado um ataque, tinha planejado atacá-los quando eles menos esperassem...
– Alguma notícia de Bill? – ele perguntou, procurando manter a voz firme.
Um som de estalido alto apareceu dentro da casa e todos correram para ver. Mr. e Mrs. Weasley apareceram, trazendo um Bill muito pálido, que segurava seu abdômen para se sentar no sofá. Foram imediatamente cercados.
– Mãe – disse Ron – o que os healers disseram?
– Ele perdeu sangue, mas vai ficar bom em alguns dias – respondeu Arthur – Não teve nenhum dano permanente.
– Harry – Mrs. Weasley sorriu – Que bom que você está bem.
– Mrs. Weasley, Bill – ele estava tremendo –, eu sinto muito.
– Bobagem, Harry. Não foi culpa sua. Só lamento que isso tudo tenha estragado sua festa. Graças a Merlin ninguém se machucou seriamente.
Remus Lupin lembrou:
– Harry, é melhor você juntar suas coisas. Sua chave de portal vai se acionar daqui a pouco.
– Mas já? – lamentou Hermione – Droga, o tempo passou muito rápido!
Ron quis saber:
– E está tudo confirmado para a última semana de férias?
Lupin foi quem respondeu:
– Sim, Ron. Vocês todos serão meus hóspedes em Grimmauld Place. Eu vou preparar tudo para recebê-los.
Despedir-se de Ron, Hermione e dos demais foi difícil, porque Harry queria ficar ali com eles. Não que ele fosse fazer alguma diferença, mas ele simplesmente queria mostrar que estava ali, ao lado de seus amigos naquela hora difícil. Que ele também estava sentindo o medo e a dor deles.
A cicatriz de Harry continuava a doer, e ele não mais se importava porque sabia do ódio de Voldemort naquele momento. Contudo, não era só ódio que ele sentia. De qualquer modo, Harry tentou fechar sua mente à invasão externa.
Ao entardecer, a chave de portal levou-o de volta à cabana e Harry olhou em volta, vendo o local vazio. Severus não estava em casa.
Angústia profunda se instalou no coração do rapaz. Sem surpresas, ele adivinhou que provavelmente seu professor tinha sido chamado por Voldemort. Não era de todo impossível presumir que o fracasso do ataque pudesse ser atribuído a Severus – de algum modo, Voldemort podia acreditar que tinha sido culpa de seu espião em Hogwarts. Ou que ele simplesmente não era seu espião.
Durante horas, Harry esperou a volta de Severus, sabendo que ele poderia demorar muito mais do que a noite toda. Ele se obrigou a fazer chá, a se acalmar e a tirar da cabeça as horríveis suposições e cenários grotescos. Afinal, sua cicatriz não estava tão dolorida, o que significava que Voldemort não estava com tanta raiva assim – ao menos não o tipo de raiva compatível com a descoberta de um traidor no seu meio.
Faltava pouco para amanhecer quando Severus retornou. O coração de Harry batia fora do compasso e ele olhou com cuidado para o homem, a fim de não perder nenhum detalhe. Severus andava reto, sem mancar, e suas roupas pareciam inteiras: se alguém tinha sido alvo da fúria de Voldemort, não tinha sido ele.
Uma onda de alívio se espalhou por seu corpo e ele deixou soltar a respiração que sequer percebera estar prendendo.
Os dois se olharam em silêncio. Finalmente, Severus deixou o canto da boca subir:
– Ouvi dizer que sua festa foi bem animada.
Harry finalmente desmontou:
– Oh, Severus... – e caiu de joelhos no chão, tremendo, o estresse do dia se revelando nele – Severus...
Severus o abraçou, e Harry agarrou-se a ele sem dizer uma palavra, o corpo inteiro estremecendo, não chorando, mas apenas agarrado junto a ele, inalando seus aromas, reconhecendo-os como cheiros de Snape. Eles ficaram assim juntos durante vários minutos, um sabendo o que o outro tinha passado. Estranhamente Harry lamentava o fato de não terem passado por isso juntos.
– Você está vivo – disse Harry, finalmente – Ele não o puniu?
– Ele não desconfia mais de mim.
Harry o encarou, os olhos verdes arregalados.
– Como?
Severus se separou dele – e Harry sentiu falta de seu toque.
– Aparentemente, o ataque aos Weasley foi sugerido como meio de provar que eu era um espião. Então, fui mantido propositadamente afastado desse plano para ver se ele daria certo. Com o desfecho dos eventos, o Lord das Trevas reafirmou sua confiança em mim e me promoveu. Ele sabe que eu não tive nenhuma participação naquele ataque estúpido e sem sentido.
– Eles estavam atrás de mim.
– Exato. E a oportunidade foi impensada e desastrosa, um desperdício de energia. O Lord das Trevas pode não me considerar um de seus colaboradores mais leais, mas ele sabe que não sou estúpido. Se eu soubesse do ataque, jamais teria concordado com ele.
– Então Voldemort foi estúpido?
– Ele simplesmente fez uma jogada – Severus deu de ombros – Uma que provavelmente não vai repetir tão cedo.
– Por causa desse ataque – disse Harry –, minha última semana de férias foi transferida para Grimmauld Place. Os Weasley vão para lá.
– Uma medida sensata. Lá todos estarão protegidos. – ele olhou para fora – O dia já está amanhecendo. Eu recomendo a você que descanse um pouco.
– Sim – confessou Harry –Agora estou mesmo cansado.
– Accio! – Um vidro de poção veio parar na mão de Severus – Eu sei que tecnicamente seu aniversário já passou, mas eu não consegui lhe entregar seu presente até agora.
Harry ficou intrigado.
– Uma poção?
– Uma poção muito rara e proibida. Tome-a antes de dormir. Ela vai lhe mostrar o que se passa em seu coração.
Harry olhou para o vidro, emocionado. Num impulso, abraçou-o:
– Obrigado, Severus.
Severus ficou tenso ao contato, mas disse suavemente:
– Vá descansar.
Harry foi para o seu quarto e tomou a poção conforme o indicado. Uma sensação agradável espalhou-se por seu corpo, e ele imediatamente escorregou para um sono profundo.
Harry sabia que estava sonhando: as imagens não eram muito nítidas, havia aquela atmosfera irreal típica de sonhos e ele estava observando a cena de fora. E que cena era: ele viu a si mesmo de pé em frente à lareira, beijando apaixonadamente Severus Snape. Os dois corpos estavam colados um no outro, as mãos acariciando o que conseguiam alcançar por cima das roupas. Harry podia sentir a urgência e a paixão nos gestos. As duas figuras no sonho respiravam ruidosamente, e de vez em quando surgia um gemido que não pudera ser reprimido. De repente os lábios se desgrudaram, e Severus passou a mordiscar a junção entre pescoço e ombro, fazendo o Harry do sonho estremecer e revirar os olhos de prazer.
– Severus... Meu amor...
Em seguida os beijos subiram pelo pescoço e Mestre de Poções usava a língua para atiçar a parte externa da orelha de Harry.
– Severus... – ele tentou de novo, arfando – Temos que parar...
– Mal começamos – voltou a beijar o pescoço, agora tentando abrir as roupas de Harry.
– Não vamos... poder terminar... Eles estão chegando – A voz do Harry onírico soou esquisita de tanto desejo – Ah, Severus... Assim você me enlouquece!...
Severus capturou-lhe os lábios e longamente os beijou, ao mesmo tempo em que tentava diminuir a temperatura. A respiração desacelerou.
– Você me deve uma sessão de sexo selvagem e apaixonado.
– Saldar essa dívida será um prazer em dobro – sorriu Harry, encarando os olhos de Severus – Eu te amo tanto...
Severus sorriu-lhe de volta, e levou seus longos dados até o rosto de seu amado, acariciando-o. O Harry onírico levou os dedos a seus lábios e beijou-os docemente, fechando os olhos de tanta reverência e devoção. Harry notou as diferenças em relação ao seu self de sonho: ele deveria ter uns 25 anos, talvez um pouco mais, e tinha perdido a aparência de rapazola, com músculos a encher-lhe os ombros e os braços esquálidos. Severus também aparentava mais idade, com alguns fios prateados na cabeça e umas poucas rugas em volta dos olhos. Os dois se olharam, um nos braços do outro, profunda emoção trocada no simples olhar.
– Obrigado.
– Severus, você não precisa me agradecer.
– Eu lhe sou grato. Nem sempre consigo expressar isso.
– Amar você é como respirar para mim. Não precisa se sentir grato.
– Não sou grato por isso. Ao menos não só por isso. Harry, você me deu uma razão para viver.
– Oh, Severus...
Os lábios se encontraram de novo, e a campainha escolheu esse momento para soar.
– Falando em razão de viver, ela acabou de chegar.
– Provavelmente está dormindo.
Harry abriu a porta e por ela entrou voando um pequeno furacão de cabelos pretos revoltos, gritando:
– Papai! Papaizinho!
Após ter suas pernas abraçadas, Harry do sonho observou a criaturinha se jogar nos braços de Severus e riu:
– Por Merlin, quanta energia para essa hora da noite! Por um acaso alguém andou comendo doce depois do jantar?
Um homem aparentemente da idade de Severus entrou, esclarecendo o mistério:
– Ora, Harry, foi só um sapinho de chocolate, unzinho só.
Harry observou o recém-chegado e sentiu seu coração se acelerar, porque ele o conhecia. Bom, não assim, com os cabelos brancos e as rugas, mas ele conhecia aquele rosto, aquele cabelo, aqueles óculos.
James Potter.
A seu lado, estava uma bruxa de cabelos avermelhados presos num coque, um sorriso suave nos lábios e olhos verdes como os seus, que traziam pequenas rugas na pele em volta deles. Lily Potter parecia ainda mais linda do que quando era jovem.
O Harry do sonho admoestou afetuosamente:
– Pai, você o mima e depois nós é que agüentamos a adrenalina do açúcar.
– Para que servem os avós?
– Eu já o fiz escovar os dentes, Harry – garantiu Lily – Depois do doce.
Severus tinha o pequeno no colo e perguntou solenemente ao garoto:
– E você deu trabalho ao seu avô e sua avó? Foi um garoto bonzinho?
– Eu fui bonzinho – respondeu o menino, orgulhoso – Tio Sirius é que levou bronca.
– E o que foi que tio Sirius aprontou dessa vez?
– Padfoot rolou comigo no jardim e aí eu tinha que tomar outro banho. A vovó chamou e eu fui, mas aí Padfoot me pegou pela perna com os dentes e me arrastou de novo para o jardim no meio das tiguidas! Quebrou as tiguidas!
– Margaridas – corrigiu Lily.
O menino parecia embaraçado:
– Magatidas. Foi sem querer, vovó.
O Harry dos sonhos franziu o cenho:
– Você sabe que não pode estragar o jardim da vovó. Que tem a dizer para ela?
– Desculpe, vovó.
– Não tem problema, querido – disse a avó – Vovó ama você.
Severus dirigiu-se ao filho:
– Isso não o desculpa, rapazinho. Depois conversamos sobre isso. Agora vá colocar o pijama porque daqui a pouco está na hora de dormir.
– Papai, você vai terminar a história do Jack Barba Negra?
– Só se você estiver na cama.
– Tá bom – ele desceu do colo de Severus, contorcendo o corpinho.
James o chamou:
– Antes venha dar adeus ao vovô e à vovó. Estamos voltando para Godric's Hollow.
– Já? – o pequeno fez cara de muxoxo.
– Está tarde, John – explicou Lily – Todos temos que ir dormir.
Harry observou o menino John, que deveria ter cinco anos ou menos: cabelos bem pretos, olhos bem verdes, narizinho comprido. Ele era uma mistura perfeita dele mesmo e de Severus.
John abraçou o avô e deu um beijo na avó. O Harry dos sonhos indagou:
– John, o que você deve dizer para a vovó e o vovô, depois de ter passado o fim de semana inteiro com eles?
– Obrigado. Desculpe pelas magatidas. Posso voltar semana que vem?
– Você pode ir para a casa da vovó quando quiser, querido.
– Papaizinho, outro dia o tio Sirius pode ir dormir lá na vovó?
– É bom perguntarmos para ele mais tarde, está bem? Agora dê boa-noite.
Harry acompanhava a cena com emoção. Seu coração parecia inchado ao ver tanto amor na família que ele mais desejava ter. Aquilo era tudo que seu coração pedia. Ele não queria que aquele sonho acabasse nunca.
Seu self no sonho ainda conversava com James e Lily, mas por algum motivo, Harry resolveu seguir Severus, que tinha ido atrás do pequeno John. O menino foi para seu quarto, um ambiente alegre na casa.
– Quer ajuda para colocar o pijama?
– Não, papai, eu já sou grande. Mas pode ficar aqui?
– Está bem. Você ganhou um cartão do seu sapo de chocolate?
– Era repetido. Vovô Albus.
– Ele vai ficar maravilhado em saber que você tem mais de um cartão.
– Eu gosto do vovô Albus. Ele é muito legal. Posso ir vê-lo amanhã?
– Quem sabe no final de semana? Eu vou ver com ele.
De pijama colocado, John se virou para Severus, o rosto franzido.
– Papai?
– Sim, John?
– Por que eu não tenho uma mamãe?
– Pensei que você já soubesse. Quer que eu explique de novo?
– Quero.
Severus pegou o menino, colocou-o no seu colo e respondeu, numa voz paciente como Harry jamais ouvira antes:
– Tem famílias que têm um papai e uma mamãe, e outras que têm duas mamães. Ainda há outras que têm dois papais, como a nossa. Eu e seu papaizinho amamos muito você, John.
– Anita Weasley disse que só as mamães podem carregar filhos na barriga. A mãe dela está carregando um irmãozinho. Quem me carregou na barriga?
– A Srta. Weasley está errada. Ela provavelmente não sabe que dois papais que se amam muito também podem carregar um filho. Foi o que seu papaizinho e eu fizemos: carregamos você sem precisar de uma mamãe porque nós amamos você muito.
– Eu fiquei na sua barriga, papai?
– Não, querido, foi na barriga do papaizinho Harry.
– Você ajudou, não foi, papai?
– Ajudei sim. Eu coloquei a sementinha na barriga dele, e ela cresceu, porque nós regamos todos os dias com muito amor. Quando você nasceu, era um bebezinho muito bonito e muito amado. Quer ver as fotografias?
– Depois – John esfregou o olho com as mãozinhas – Conta a história do pirata Jack agora?
– Já sabe: tem que ir para a cama. Não quer ir ao banheiro primeiro? Se não, você pode molhar sua cama.
– Papai! – ele parecia indignado – Eu não sou mais bebezinho! Não faço pipi na cama.
– Claro, você já é grandinho. Mas mesmo assim, é bom ir ao banheiro. Para garantir.
O menino correu e voltou rapidamente. Ele se abraçou a Severus com força.
– Você e o papaizinho vão querer carregar outro bebê na barriga?
– Por que está perguntando isso, John?
– Porque aí ele é quem ia molhar a cama.
– Você ia gostar de ter um irmãozinho ou irmãzinha, John?
– Não sei – ele deu de ombros – Meninas não são divertidas.
– Você pode mudar de idéia quando ficar mais velho e descobrir que as meninas podem ser bem interessantes. Você cuidaria de sua irmãzinha para ninguém implicar com ela?
– Eu acho que sim. O irmão de Anita é grande, e ela toma conta dela. Ela não precisa porque ela deu um empurrão no Chester Parkinson-Malfoy, e ele é um menino!
Severus segurou o riso. John o olhou com atenção, os olhinhos brilhando:
– Você cuida de mim, não é, papai?
– Sempre, John. Seu pai e eu vamos sempre cuidar de você.
– Mesmo com um outro bebê?
– Mesmo com um outro bebê ou com dois outros bebês. Você é nosso tesouro. Nunca se esqueça disso.
– Eu te amo, papai.
– Eu também te amo, filho.
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Harry quando ele viu o seu self de sonho acompanhando a cena da porta do quarto, também muito emocionado. O problema é que aquela lágrima terminou despertando sua consciência e a cena foi se desfazendo diante dele, que lutava para manter-se no sonho, para não deixar aquela cena morrer, para manter viva um pouco mais tempo a memória de um desejo...
Era manhã alta quando ele acordou, e sentiu uma umidade no rosto. Ele também estava chorando de verdade, por isso acordara. A força do sonho o deixara ofegante e trêmulo. Ele se sentou na cama, tentando recompor-se. Harry podia compreender naquele momento porque a tal poção era proibida.
Nunca antes Harry tinha sentido tanto a falta de alguma coisa que nunca tivera. Uma família. Isso era o que ele mais queria, e ele sempre soubera disso, mas nunca tinha idéia de que quisesse uma família com essa intensidade.
Harry sabia que jamais poderia ter a família do sonho que a poção induzira. James, Lily e Sirius estavam mortos, e jamais voltariam. Mas ele podia ter parte daquela família. Um filho, uma coisinha pequenina para ter nos braços, para chamá-lo de papaizinho. E Severus, alguém para amar e a quem se entregar.
Ter uma razão pela qual viver.
Aquilo não seria feito de um dia para o outro, sabia Harry, finalmente acalmando-se depois da intensidade do sonho.
Mas tinha que começar em algum lugar.
Ele enfiou a primeira roupa que pôs nas mãos e saiu quarto afora, procurando Severus. Encontrou-o no laboratório, onde entrou sem bater.
Severus o encarou, surpreso com sua ousadia. Mas então os olhos se encontraram. E havia algo no olhar de Harry que fez Severus simplesmente esquecer a bronca que estava se preparando para soltar.
– Eu não quero esperar.
Severus não respondeu, ainda sem entender.
– As duas semanas. – esclareceu Harry – Eu não quero esperar tudo isso. Preciso de você agora.
E simplesmente atravessou o laboratório, puxando Severus contra si, colando os lábios nos dele, apertando seu corpo contra o dele, mais uma vez sentindo-se como se chegasse em casa depois de um longo tempo de exílio. Ali ele se sentia seguro, confortável. O cheiro já familiar de Severus, de ingredientes de poções e madeira, só contribuía para a sensação de estar fazendo a coisa certa.
Por um segundo, Severus ficou tão chocado que seus reflexos o traíram, e ele não conseguiu impedir o rapaz. Uma vez que ele avançou e o envolveu, porém, Severus perdeu as forças para lutar contra aquilo e simplesmente entregou-se ao beijo, com Harry moldando-se ao seu corpo. Havia um gosto diferente, e um cheiro exótico que parecia estar sendo gravado no fundo do cérebro de Severus. Parecia que ele estava simplesmente sendo levado, sem poder resistir.
E de repente, ele precisava estabelecer limites.
– Espere! – ele se afastou de Harry, ofegante – É preciso primeiro deixar uma coisa bem clara.
Harry o olhou, incrédulo. E delicioso, pensou Severus. Os lábios estavam inchados e rosados, as maçãs do rosto coradas, os cabelos revoltos, os olhos escurecidos de desejo. Ele teve que desviar o olhar para não se distrair.
– Nem tente me convencer de que você não me quer! – começou Harry, alterado – Não diga que você não quer isso!
– Eu quero apenas estabelecer condições – esclareceu Severus – Isso tudo pára quando voltarmos a Hogwarts.
– Mas por quê?
– Preciso mesmo explicar? Harry, se ao menos estivéssemos com a cabeça no lugar, isso nem estaria acontecendo!...
– Mas está acontecendo, Severus, não tente negar a realidade!
– Não se trata disso. Só não pode acontecer em Hogwarts.
– E se tomássemos cuidados para esconder de todos?
– Quanto tempo um segredo consegue ficar sem ser descoberto naquela escola?
Harry não riu da ironia – até porque ela era verdade.
– Severus, eu não quero só um verão. Você apareceu no meu sonho! É você que eu quero, e aquela família que eu vi no sonho. Eu quero mais do que um verão.
Severus também queria. Mas ele raramente obtinha o que seu coração deseja, então ele simplesmente esmagou aquele desejo, como sempre fazia. Seu controle se perdeu por um instante.
– Harry, eu estou falando sério. Se não for assim, isso pára aqui e agora!
Harry arregalou os olhos. Severus falava sério.
– Posso pelo menos visitá-lo na escola? – tentou negociar – Só para... conversar?
– Só conversar mesmo? – Harry assentiu – Se não puder se controlar, saiba que não hesitarei em expulsá-lo de meus aposentos.
Aposentos? Harry pensava em encontrá-lo no seu gabinete, então não ia reclamar se finalmente tivesse acesso aos aposentos de Severus.
Ele passou os braços em volta da cintura do seu professor e apertou-o contra si:
– Está bem, você venceu. Mas agora eu vou querer você inteiro no verão. Esse é o nosso tempo e eu vou querê-lo integralmente. Agora tenho certeza de uma coisa, mais do que nunca: amo você.
Severus desviou o olhar, sentindo-se sujo e indigno.
– Você não precisa dizer isso.
– É a verdade – Harry não podia entender como Severus relutava tanto em aceitar isso – Você não acredita. Mas é verdade. Eu vou provar.
Sem outra palavra, Harry atacou os lábios de Severus com sofreguidão, apertando seu corpo contra o dele. O contato reacendeu a paixão em Severus, e ele respondeu à altura, mais uma vez deixando-se envolver pelos aromas que emanavam do rapaz. As línguas se encontraram e Harry se contorcia todo, fazendo sua ereção roçar contra a de Severus, ambas confinadas por roupas.
Harry parecia faminto e desesperado, e Severus notou que ele não agüentaria muito tempo, provavelmente encerraria toda a diversão antes de começar. Ao invés de tentar acalmar um adolescente nos píncaros da paixão, ele tomou o caminho inverso: abriu a calça jeans de Harry, ajoelhou-se no chão e passou a lamber-lhe a ereção com todo o entusiasmo que podia. Harry soltou um gemido do fundo da garganta, e aparentemente, todo o sangue do seu cérebro fugindo para o meio de suas pernas.
Uma vez, durante o sexto ano, Harry tinha sido chupado por uma menina Ravenclaw. Mas aquilo tinha sido risível se comparado ao que o Mestre de Poções estava fazendo com seu pênis. Harry não era exatamente bem-dotado, apenas adequado, mas naquele momento ele se sentia como se seu pênis fosse muito maior, tamanha a sucção que Severus aplicava. Ao mesmo tempo, ele também estava massageando a base, levando Harry às nuvens. Depois ele passou a língua na ponta, coletando o líquido que começava a sair. Todos os nervos de Harry estavam em curto, e ele estava com as pernas tão trêmulas que se apoiou no balcão atrás de si, gemendo cada vez mais alto, sentindo a pressão subir cada vez mais.
Harry olhou para baixo e teve um choque: ver seu professor deslizando os lábios em seu pênis para cima e para baixo era demais, e ele sentiu que iria explodir.
– Espere... eu vou!...
Não deu tempo de nada. Com um grito inarticulado, ele sentiu a explosão percorrer seu corpo, e Severus retirou-se rapidamente, espremendo o membro com a mão, retirando dele o líquido viscoso que jorrava.
Nunca Harry tinha tido um orgasmo tão poderoso. Ele estava com as pernas bambas, tentando recuperar o fôlego enquanto Severus o limpava e o vestia.
– Nossa... isso foi demais! – ele abriu um sorriso – Eu quero fazer isso com você também!
– Vá com calma, Harry.
– Calma? Eu tenho 17 anos e nunca tinha transado com um homem. Adorei! Quero mais!
– Então eu sugiro transferir nossas atividades para um local mais apropriado: meu quarto.
Os dois deixaram o porão e foram para o quarto, que mesmo em plena luz do dia estava na penumbra. Lá Harry voltou a beijar Severus com paixão, desta vez retirando-lhes as roupas. Curioso, ele observou com interesse o corpo magro, a pele pálida, os poucos pêlos bem negros no peito. Quando tirou a calça e a cueca, ele apreciou o pênis volumoso, semi-ereto, que se destacava de sua cortina de negros pêlos pubianos. As pernas não eram finas, mas também não eram musculosas. No todo, era um corpo bem-feito, embora não excepcional. Harry sabia que seu corpo era magrelo e ossudo, em comparação ao de Severus. Ele foi sincero:
– Você é tão bonito...
Severus soltou uma risada amarga:
– Precisa rever seu senso estético com urgência.
– Não, você é muito bonito e bem-feito. Você se esconde atrás de suas atitudes, mas se as pessoas soubessem como você é sexy... Aposto como haveria multidões correndo atrás de você.
– Pare de dizer bobagens e me diga: você já fez sexo antes?
Harry ficou vermelho:
– Uma vez, com uma menina de Ravenclaw. Ela era boazinha e experiente, mas eu não achei muito bom. Só depois eu entendi por quê.
– Harry, ainda há tempo se você preferir não fazer isso. Sua primeira vez deve ser com alguém que você considere importante. Pode parecer clichê, mas acredite, porque é verdade: você vai se lembrar disso para sempre.
– Eu te amo, Severus. Tem que ser você.
– E você entende o conceito de sexo gay? Pode ser... desconfortável.
Harry sorriu.
– Eu seu. Sei também que você jamais me machucaria de propósito, Severus.
– Vamos devagar. Você está muito excitado. Precisa aprender a se controlar – apontou para a ereção de Harry, que já estava de novo a todo vapor.
– Mas eu não quero me controlar, eu quero fazer você perder o controle – ele enlaçou o corpo nu de Severus – Eu quero você agora, dentro de mim.
Jamais Harry tinha visto uma expressão tão genuína de surpresa como a que se espalhou no rosto de Severus. Ele simplesmente ficou encarando Harry, espantado. O garoto ficou intrigado.
– Eu disse alguma coisa errada?
– Não, mas... – ele tentou se recompor – Acho que primeiro devemos tentar o caminho inverso.
– Você diz... eu... em você? Mas eu nunca fiz isso.
– Por isso mesmo. Você precisa conhecer antes de se decidir se prefere ficar em cima ou embaixo.
Harry sorriu, maroto:
– E eu que já estava certo de que isso – ele agarrou o pênis de Severus, fazendo o outro pular – iria todinho para dentro de mim...
Garotinho safadinho...
Severus adquiriu um tom professoral:
– A preparação do parceiro é importante. Vamos ver... o que podemos usar...
– Você não tem lubrificante?
– Eu nunca tive hóspedes. É claro que não estava preparado.
– Uma vez eu ouvi falar de um filme Muggle no qual eles usavam manteiga.
– Boa idéia. Accio azeite! – Harry o olhou, intrigado – Dá menos cheiro.
Quando Severus se deitou de bruços para que Harry o preparasse, o rapaz não pôde evitar olhar as marcas e cicatrizes que ele trazia nas costas. Num impulso, ele se inclinou para beijar uma delas e notou que Severus ficou rígido.
– Shh, está tudo bem – ele disse baixinho – Está tudo bem, Severus.
Harry beijou as costas, como se o toque de seus lábios pudesse pagar as marcas e a dor que essas marcas evocavam. Depois ele besuntou o óleo em seus dedos e introduziu-os em seu professor conforme ia sendo instruído, sem poder deixar de sentir um certo nervosismo por estar tocando naquele lugar. Mas pelas reações de Severus, parecia que ele estava fazendo tudo direito.
Severus não era uma pessoa de vocalizar seus sentimentos, e Harry gostaria de ver em seu rosto a reação àquilo que ele estava fazendo. Ele já estava trabalhando com o terceiro dedo quando recebeu a instrução de preparar-se para a penetração.
Nunca Harry poderia estar suficientemente preparado para aquela sensação. Ele foi entrando devagar, deleitando-se em cada momento, seu corpo todo em brasa. Severus era simplesmente delicioso.
Com carinho, ele começou a se mexer, e as sensações se multiplicaram. Harry se perdeu no calor do corpo de Severus, e puxou-o pelos quadris, ansioso por mais fricção, aumentando o ritmo das estocadas. Ele não queria terminar logo, mas seu corpo corria rumo ao clímax. Nunca ele tinha sentido uma coisa assim.
Talvez por inexperiência, talvez por seu deslocado sentimentalismo, Harry era carinhoso, constatou Severus, enquanto se submetia ao ritmo das estocadas do rapaz. Ele estava medianamente surpreso, e seu corpo reagiu quando sua próstata foi devidamente estimulada. Sim, Harry era capaz de proporcionar prazer. Isso era refrescante.
Severus se surpreendeu quando uma das mãos de Harry serpenteou por baixo de seu corpo e agarrou-lhe o pênis semi-ereto. Pelos gemidos altos e pelo ritmo, Harry não estava longe de atingir seu clímax, o que aconteceu em poucos minutos. Ao mesmo tempo em que gozara, Harry massageou Severus, fazendo-o atingir prazer como nunca antes. Num misto de surpresa, admiração e espanto, o Mestre de Poções grunhiu e despejou sua semente na mão de Harry.
Mais surpreendentemente ainda, Harry se ajeitou nos braços de Severus, soltando um grande suspiro. Ele encostou seus lábios nos de Severus, murmurando, sonolento:
– Eu te amo...
Harry percebeu que, como sempre, Severus tinha ficado rígido ao seu toque, como se não o esperasse ou não estivesse acostumado a ser tocado. Contudo, ele sentiu os músculos tensos relaxando após algum tempo, ao mesmo tempo em que deslizava para o sono pós-coital, pensando: "Eu vou fazer você se acostumar comigo, Severus."
As reclamações altas de seu estômago acordaram Harry. Olhou em volta: estava sozinho na cama e ainda era dia.
Vestiu-se e encontrou Severus na cozinha, mexendo uma panela como se fosse uma poção, um cheiro bom de assado lhe assaltando as narinas. Ele o abraçou por trás e beijou-lhe o ombro:
– Bom-dia, amor.
Severus tinha ficado rígido ao seu toque, mas relaxou e disse:
– É quase final da tarde. Dificilmente bom-dia.
– Estou faminto. Que cheiro bom é esse?
– Um simples frango assado. Estou fazendo um molho de ameixas e bolinhos de batata. Se quiser ajudar, pode fazer uma salada.
Está bem. Vai ser um jantar adiantado, eu acho. Está muito tarde para ser um almoço tardio.
– Vamos comer logo. Ainda temos uma aula de Legilimência programada para hoje.
– Está bem – disse Harry, separando as folhas de chicória – Eu não tive chance de lhe agradecer o presente de aniversário. Ele me fez lembrar o Espelho de Erised. Se eu tivesse olhado o espelho, acho que teria visto a mesma coisa.
– A poção e o espelho trabalham com princípios semelhantes. Você tem consciência de que o conteúdo que eles trazem pode mudar com o tempo.
– Não foi muito diferente do que eu vi no espelho há quase seis anos. Vi meus pais de novo, Sirius estava vivo... e eu tinha uma família linda: você e nosso filho John.
Severus perdeu a cor, e perdeu o ritmo com o qual mexia o molho de ameixas. Recompôs-se rapidamente.
– Tenho certeza de que entende por que essa poção é proibida.
– Por isso agradeço por tê-la feito. Isso foi muita gentileza de sua parte – ele deu um beijo na bochecha de Severus, que ficou pensativo, mexendo o molho sentindo a pele formigar com o toque carinhoso.
Após a refeição, eles retomaram as lições de Legilimência. O primeiro pensamento que Harry adentrou foi a reunião de Voldemort e seus seguidores encapuzados. Ele estava furioso.
– Capturados!... Nossos irmãos foram capturados!
– Milord – Harry reconheceu a voz de Lucius Malfoy sob o capuz –, podemos libertá-los. Sem os Dementadores em Azkaban...
Foi interrompido:
– Eles não deveriam ter sido capturados para início de conversa! O plano todo foi um fracasso! Harry Potter sequer estava lá!
– Mas ele estava lá, Mestre – disse um outro, a voz trêmula – A festa era para ele. Alguém deve tê-lo avisado.
– E desta vez não adianta tentarem culpar Severus. Ele não teve participação alguma nesse plano fracassado e patético de vocês!
Houve um silêncio desconfortável no círculo de homens encapuzados.
– Severus, eu duvidei de sua lealdade e não deveria ter feito isso. Pensei que você pudesse estar contaminado, depois de todos esses anos ao lado de Dumbledore.
– Milord, meu único desejo é servi-lo.
Voldemort voltou-se para os demais:
– Severus deve ser tratado com respeito e reconhecido como importante colaborador da causa. Desrespeito para com ele será punível, e eu saberei se isso acontecer. Ninguém esconde nada de Lord Voldemort.
De repente a barreira mental se ergueu novamente diante de Harry, uma barreira sólida e forte. Contudo, Harry a derrubou com facilidade, e uma cena conhecida se descortinou diante dele: um jovem Severus estava no laboratório e Voldemort estava com ele. Harry tinha visto essa cena antes, mas Severus o expulsara de sua mente, impedindo-o de ver mais.
Parece que ele estava no exato ponto onde tinha sido interrompido anteriormente: lentamente, tentando esconder toda sua relutância, Severus se colocou de joelhos diante de seu Lord, seus olhos na altura da cintura do outro. Esticou a mão e afastou as vestes de seu Mestre. Ele não usava nada por baixo.
Severus aproximou seu rosto do pênis semi-ereto e lambeu-o generosamente, provocando um gemido em Voldemort. Em seguida, lambeu e chupou delicadamente as bolotas, massageando-as.
– Hum... – fez Voldemort alto – Muito bom, Severus... Continue. Não seja tímido.
Obediente, Severus pegou a ponta e chupou-a massageando a base com a outra mão. Voldemort gemeu alto e agarrou-lhe os cabelos, empurrando-o para abocanhar mais. Severus quase engasgou e sentiu a garganta arranhar com a força com que era obrigado a receber o pênis agora completamente ereto em sua boca. Rapidamente, ele se ajustou e passou a deslizar os lábios para cima e para baixo, aplicando sucção. Vez por outra, ele deixava os dentes roçarem a extensão do membro. Voldemort passou a se mexer, forçando mais e mais sua cabeça, aumentando o ritmo, usando a boca para lhe proporcionar prazer máximo. Severus tinha que ser rápido para não engasgar, mas sua garganta já estava ferida. Ele sentiu suas roupas deixando seu corpo magicamente, e ficou nu no chão frio.
Subitamente, Voldemort o forçou a ficar de quatro no chão e murmurou um feitiço, antes de arremeter com força para dentro de seu servo. Severus engoliu o grito e reprimiu a dor, forçando-se a relaxar – se ele ficasse tenso, só se machucaria ainda mais. Voldemort certamente não estava preocupado com isso: ele estocava de maneira bárbara, grunhido alto, usando-o com toda a força. Harry viu um filete se sangue escorrer-lhe perna abaixo.
Pelo ritmo que Voldemort imprimida, parecia que tudo iria terminar logo. Não foi assim. De repente, ele desmontou e murmurou outro feitiço. Severus estava deitado de costas, braços amarrados para cima, joelhos dobrados encostando nos ombros, totalmente exposto. Havia sangue em seu orifício alargado. Com um sorriso, Voldemort amarrou-lhe o pênis e puxou-o para trás, de tal modo que ele estava invertido, virado para trás, amassando-lhe os testículos, a ponta ameaçadoramente perto de seu ânus.
Harry estremeceu, solidário na dor que Severus deveria estar sentindo. Ele mal respirava, pálido, uma grossa camada de suor cobrindo o rosto. Voldemort puxou-lhe o pênis ainda mais, tentando fazê-lo entrar em sua própria abertura, e Severus soltou um grito de dor.
A reação de Voldemort não foi boa: ele conjurou uma vara grossa e usou-a para bater no pênis. Severus parecia que ia desmaiar de dor. A vara foi enfiada no seu orifício e o sangue voltou a jorrar.
Harry estava horrorizado. A sessão de tortura sexual continuou durante muito tempo, e Harry forçou-se a assistir, embora revoltasse e fisicamente enjoado, o estômago embrulhado.
Finalmente, Voldemort se cansou e desamarrou Severus. Havia muito sangue em seu corpo, cortes que se transformariam em cicatrizes, lesões e rupturas diversas.
– Você não deixa de ter seus talentos, Severus. Posso ver de onde vieram os comentários. Mas prefiro-o com poções.
Harry não soube dizer se Severus desmaiou de alívio ou de exaustão – o fato é que Voldemort o deixou como ele estava, nu, sangrando, desacordado, no chão do laboratório. Harry foi quase que imediatamente transportado para um outro pensamento.
O jovem Severus estava diante de Albus Dumbledore, no gabinete do diretor de Hogwarts. Embora fosse ainda jovem, via-se que ele não era mais um aluno.
– Severus, meu caro – Dumbledore sorriu, indo para a bandeja em sua mesa – Chá?
– Não, obrigado, diretor. Eu preciso lhe falar de um assunto importante.
– Entendo. Nesse caso, eu insisto que tome uma xícara de chá, Severus. Você parece muito tenso.
Relutantemente, ele aceitou o chá, dizendo:
– Sei que combate o Lord em ascensão.
– O nome dele é Voldemort, como ele mesmo prefere ser chamado.
Severus se encolheu diante do nome, mas continuou:
– Eu... estou associado a ele.
– Biscoitinhos de nata? Vão muito bem com o chá.
– Não, obrigado – Severus tomou um gole do chá e reconheceu imediatamente o gosto de Veritaserum – Ah. Claro.
– Lamento, mas você pode entender a necessidade do soro da verdade.
– Certamente. Eu estou disposto a encerrar minha associação com ele.
Dumbledore assentiu, pensativo:
– Não é tarefa das mais fáceis. Eu soube o que aconteceu com o jovem Regulus.
– Regulus Black era um tolo ainda maior do que seu irmão Sirius. – As palavras saíram com desprezo e desdém – Considero-me um pouco mais inteligente do que ele. E mais bem preparado também. Conheço Legilimência e Oclumência.
Os olhos de Dumbledore brilharam visivelmente. Severus continuou:
– Acredito que com sua ajuda eu consiga viver tempo suficiente para contar ao Ministério tudo que sei. Depois disso não me importo de morrer, seja nas mãos do Lord das Trevas, seja nas mãos de algum carrasco do Ministério da Magia.
– Você parece decidido, Severus. Em que posso ajudá-lo?
– Gostaria apenas que intercedesse junto ao Ministério, para que eu não fosse morto antes de conseguir dizer minha história. Minha vida pode não valer muita coisa, mas não quero que minha morte seja em vão. Se os associados do Lord me pegarem antes de eu falar...
Dumbledore o olhou com cuidado.
– É uma mudança bem grande para quem acreditava em seus ideais. Você tinha convicção nas idéias de Voldemort?
Severus estremeceu diante do nome, mas ele sentiu o efeito do soro forçando-o a responder:
– Ele tem muito poder, e isso me atraiu mais do que suas idéias. Embora na época elas não parecessem tão absurdas, confesso.
– E seu pai?
Severus ficou completamente hirto de tanta tensão.
– Eu me dissociei completamente dele há anos. Ele não tem influência nessa minha decisão de sair, assim como não teve na minha decisão de entrar. Ele não é associado do Lord, embora seja simpatizante da causa.
– Você disse que na época não achava as idéias de Voldemort – novo encolhimento – absurdas. E hoje?
– Hoje essas idéias não têm mais o mesmo apelo de antes. E ele não as honra, de qualquer modo.
– Mas esse não é o motivo pelo qual você está querendo sair, não é?
– Não – o soro o fez admitir – Não é.
Harry viu-o baixar a cabeça, evitando olhar Dumbledore.
– Aconteceu alguma coisa, não aconteceu, Severus?
– Sim.
Então Severus ergueu a cabeça, olhando diretamente, e Harry teve um choque. Os olhos profundos transmitiam uma dor tão imensa e intensa, e uma súplica quase explícita para evitar a próxima pergunta. Severus parecia frágil, prestes a se quebrar como uma camada de gelo na superfície de um lago na primavera.
Dumbledore captou a súplica daquele olhar e disse suavemente, como se falasse com uma criança particularmente travessa:
– Muito bem, então. Vou usar Legilimência com sua permissão, Severus. Preciso saber, e peço desculpas pela intrusão, mas ela é necessária. Por favor, não resista.
– Não resistirei – A voz era miúda, como Harry jamais ouvira em Severus.
– Legilimens!
Lógico que Harry não podia saber o que Dumbledore estava vendo na mente de Severus. Mas a figura do jovem, seu rosto branco e trêmulo, seu olhar vazio, lhe deram a certeza de que verdades terríveis estavam sendo reveladas. Harry ficou impaciente.
De repente, Dumbledore soltou um suspiro e se sentou à mesa. Olhou para Severus. Naquele momento, o diretor de Hogwarts pareceu imensamente mais velho do que seus longos anos.
– Meu pobre rapaz...
Severus estava branco e tremia. Entre dentes, ele rosnou:
– Não preciso de sua piedade. Preciso apenas de sua ajuda.
– Eu posso ajudá-lo, Severus. Mas tenho uma proposta para lhe fazer que acredito ser mais interessante do que a perspectiva de passar o resto da vida em Azkaban.
– Uma morte rápida? – ironizou.
– Um trabalho para o lado que se opõe às trevas. Você é muito valioso, Severus. Seus conhecimentos de Legilimência e Oclumência o tornam ideal para ser um excelente espião.
– E isso não é uma morte rápida?
– Você tem todas as qualidades para ser um espião bem-sucedido. Eu conheço o risco inerente à atividade, e a única segurança que posso lhe oferecer é a do castelo de Hogwarts.
– Como assim?
– Há vagas abertas para o quadro docente. Gostaria que pensasse em se tornar professor de sua antiga escola.
– Ficou maluco? Se eu aceitar, ficaremos muito próximos um do outro. O Lord das Trevas vai desconfiar de alguma coisa, certamente. Terei a carreira de espião mais curta dessa guerra!
– Não, acho que ele ficará satisfeito, na verdade. Você lhe dirá que é a oportunidade que você esperava para se tornar um espião. Voldemort não tem nenhum agente operando em Hogwarts, e eu tenho certeza de que ele gostaria de ter informações a meu respeito.
Severus ergueu uma sobrancelha, e Harry pôde ver o jogo de emoções passando por seu rosto. Após breves minutos, ele assentiu:
– Está bem. Sou qualificado para a posição de Defesa das Artes das Trevas.
– Sim, sim, diga isso a Voldemort. Mas na verdade, eu pensava mais em aproveitá-lo em Poções. Suas credenciais nessa área são absolutamente brilhantes.
Severus rapidamente reprimiu sua contrariedade e assentiu, os lábios pressionados numa linha reta.
– Entendo. Bom, talvez ano que vem eu possa me candidatar novamente?
Dumbledore sorriu, os olhinhos azuis faiscando.
– Quem sabe o que o futuro nos reserva? Enquanto isso, bem-vindo a Hogwarts, Severus.
As mãos foram apertadas, o contrato selado, e Harry observou Severus atentamente, dando-se conta de uma coisa.
Severus tinha certeza absoluta de que não sobreviveria.
Nos dias que se seguiram, Harry foi especialmente atencioso com Severus na cama. Sob o pretexto de praticar o que tinha aprendido, Harry volta e meia enfiava-se no meio das pernas de Severus e usava sua boca para lhe dar o máximo de prazer. Beijava-o muito, tocava-o sempre, elogiava-o e tentava não se ofender quando Severus parecia surpreso com toda aquela atenção. Estava na cara que Severus nunca tinha tido namorados atenciosos, e que Lucius não fora o único a tratá-lo de maneira desprezível.
Tudo isso ficou claro feito água quando Harry insistiu para que Severus fizesse amor com ele. Harry precisou ser mesmo muito insistente e observou a relutância de Severus, que foi intensa.
– Você quer que minha educação sexual fique incompleta?
– Harry, você não precisa fazer isso.
– Mas eu quero tanto! Ter você dentro de mim vai ser mágico.
– Preciso avisar que isso pode ser doloroso.
– Não, você jamais me machucaria. Mesmo se doer, vai ser só da primeira vez. Por favor, não me negue isso.
Severus tremia. O garoto parecia irredutível. Ele não seria convencido.
– Harry, você precisa saber a verdade. Eu nunca fiz isso.
– Mesmo? Ai, é tão romântico. Assim você é uma espécie de virgem, não é? Mas eu confio em você totalmente. Quer me preparar? – ele passou a jarra de lubrificante.
Severus arregalou os olhos e encarou Harry. Ele não podia acreditar: o menino estava se oferecendo a ele, de bom grado e boa fé. Ele percorreu os olhos na pele jovem, impecável, e sentiu desejo de tocá-la, acariciá-la como se fosse a primeira vez.
Foi então, naquele momento, que Severus entendeu pela primeira vez que Harry não o estava usando. Por mais inacreditável que fosse, Harry era sincero e o amava de verdade, mesmo sendo ele quem era. Não que Harry soubesse, mas Severus se sentia grato mesmo assim. E ele o beijou cheio de emoção.
– Oh, Severus... – Harry parecia tão aceso – Por favor...
Ele pegou o lubrificante:
– Fique de bruços. É melhor para a primeira vez.
– Não, Severus. Eu quero ver o seu rosto, quero que você veja o meu.
Severus sentiu uma onda de desejo e beijou-o profundamente. Depois ele foi beijando o pescoço, o peito, a barriga, o umbigo, e então, ele ergueu as pernas de Harry e lambeu-lhe a abertura. Harry gritou de prazer, e Severus usou a língua para relaxar-lhe o orifício. Quando o garoto estava corcoveando, ele levou os dedos lambuzados ao local. Preparou-o muito bem, com todo o cuidado, usando até quatro dedos. Harry estava no limite de sua resistência.
– Severus, por favor!...
– Calma – passou a poção em si mesmo, e teve que se controlar, porque até mesmo o simples ato de lubrificar-se quase o fez gozar – Isso tem que ser feito direito.
Harry mantinha-se de pernas abertas e erguidas, os olhos verdes escuros de paixão, respiração ofegante, o corpo franzino suado. Severus achou aquilo tão adorável que o beijou no meio das pernas rapidamente e ele pulou, gritando. Em seguida, Severus posicionou-se na entrada.
– Pronto?
– Mais do que pronto!... – Harry ergueu os quadris, impaciente, e a pontinha terminou entrando um pouco – Mais, mais!
Severus deslizou para dentro, suave e lentamente. Ele nunca tinha sentido nada igual. Era tão quente e apertado, ele podia ficar lá para sempre. Ele se enterrou, saboreando as sensações daquela abertura virgem, ouvindo Harry gemer de prazer, deixando ambos se acostumarem àquilo. Quando Harry começou a se contorcer, ele pôs-se em movimento Primeiro lentamente, depois mais fundo, até sentir roçar em algo no fundo de Harry e o garoto pulou:
– Oh, meu Deus!... Faz de novo!
Severus obedeceu e o rapaz pareceu enlouquecer, dizendo coisas incoerentes misturadas a juras eternas de amor. Para ser sincero, Severus não estava em melhor estado, alucinado de tanto prazer. Ele teve a presença de espírito de estimular Harry com as mãos, e isso foi o que bastou para o jovem – ele explodiu com um urro, sua semente indo parar até no queixo de Severus, o rosto todo contorcido de êxtase intenso. Mais do que isso: seu orgasmo o fizera enrijecer os músculos e a pressão extra no pênis de Severo o precipitara ao clímax também.
Ofegantes, suados, eles se abraçaram enquanto as ondas de prazer percorriam seus corpos. Quando recobrou a consciência, Severus usou um feitiço para limpá-los, embora soubesse que eles logo estariam no chuveiro, fazendo amor debaixo d'água, como era de costume num dia quente como aquele.
A Legilimência continuou, e Harry já não era detido pelas barreiras mentais de Severus. Ele via todo o sofrimento de seu professor, suas atividades como Death Eater, os maus-tratos com o pai. A intimidade sexual dera a Harry confiança também no plano mental, e o rapaz se revelara um Legimens de grande categoria.
– Você progrediu imensamente – Severus parecia satisfeito – Acho que em breve poderá enfrentar seu inimigo.
– Não sei, não. Eu quebro todas as suas barreiras mentais, mas você ainda me esconde coisas. Por quê, Severus? Não confia em mim?
– Ora, um homem não tem direito a ter seus segredos?
– Severus, não mude de assunto.
– Se você não consegue achar esses supostos segredos em minha mente, como pode ter certeza de que estou escondendo alguma coisa?
– Eu vejo em seus olhos.
– Ahá. Entendeu agora como o contato visual é importante em Legilimência?
– Está mudando de assunto de novo – Harry se esforçou para tentar extrair o conhecimento direto de sua mente – Está tentando esconder uma preocupação... Preocupação comigo. Está preocupado comigo.
– Tem certeza?
– O verão está acabando, é esse o motivo – continuou Harry – Você está determinado a terminar tudo entre nós quando eu for embora!
– Harry, nós já conversamos sobre isso. Você já sabia.
– Eu pensei que você fosse mudar de idéia – o garoto parecia angustiado – Severus, eu te amo. E você também sente alguma coisa por mim, não pode negar.
– Harry, use a cabeça. Isso não cairia bem para Dumbledore. Seria um escândalo enorme.
– Eu não ligo para os outros vão dizer. Só gostaria de falar para meus amigos, de qualquer jeito.
– Pense em sua segurança. O Lord das Trevas vai pensar que todos os seus aniversários chegaram no mesmo dia, minha vida de espião seria encerrada e sua reputação perante o mundo bruxo estaria na lama! Você arruinaria sua vida, Harry. Não vale a pena.
– Você quer dizer que você não vale a pena.
– É a verdade. Fico honrado com os sentimentos que você me dedica, mas eles são passageiros. Você certamente encontrará, em breve, alguém mais digno, mais bonito, mais jovem e que seja mais merecedor de suas atenções.
– Severus, quantas vezes eu tenho que dizer? Eu amo você de verdade, não estou brincando. A questão é saber como você se sente a meu respeito.
– Meus sentimentos não são importantes. Minha decisão é final – ele olhou duramente para Harry, o velho e odiado professor de volta – Se não gosta dela, posso arranjar para você ir mais cedo para junto de seus amigos e livrá-lo de minha presença, se ela o incomoda.
– Não! – disse Harry – Não, não quero me separar de você. Por favor.
– Então você cessará esse assunto imediatamente e nunca mais tocará nisso.
– Antes eu preciso deixar uma coisa bem clara: eu vou procurá-lo em Hogwarts. Podemos ser amigos, não? Conversar um pouco? O que diz?
Severus hesitou. A proximidade talvez não fosse uma boa idéia. Aquela semana longe, que Harry passaria em Grimmauld Place, podia ser providencial para ambos colocarem a cabeça no lugar depois do idílio dos últimos tempos.
– Harry, podemos discutir isso melhor em Hogwarts – resolveu não se comprometer.
– Está bem – Harry abraçou-se a ele – Mas não duvide do que eu sinto por você.
Severus não respondeu. Harry continuamente o surpreendia com suas demonstrações de carinho, como a que acabava de fazer. O amargo professor guardava todos aqueles momentos cuidadosamente em sua memória, ciente de que em breve ele só teria as lembranças de Harry para amenizar sua solidão. Harry se separaria dele, como era natural, e ele ficaria sozinho, pois era assim que gente com ele merecia ficar.
Nos últimos dias que passaram juntos, Harry e Severus praticamente não se desgrudaram, fazendo amor sempre que estavam acordados, parando apenas para comer e tomar banho – ainda assim, eles usavam a criatividade para adicionar sexo até nessas duas atividades.
A separação iminente não era mais mencionada, mas Severus via um jeito triste no olhar de Harry, às vezes, quando o rapaz achava que ele não percebia. Severus odiava ter que magoá-lo desse jeito, mas era para o próprio bem de Harry. Algum dia ele iria entender e talvez até agradecesse.
Por sua vez, Severus não podia negar que sentia algo por Harry e a separação também não lhe seria indolor, de jeito algum. O tempo que eles tinham passado juntos desde o aniversário de Harry tinha sido o melhor de toda a sua vida. Severus tinha que reconhecer que Harry lhe provocava emoções, e ele estava a um passo de sentir-se digno de ser amado. Era um sentimento perigoso para alguém como ele, que nunca seria aceito por pessoas dignas. Talvez por ter sentimentos genuínos por Harry é que Severus insistisse na sua separação. Ele não queria ver o rapaz manchado por sua escuridão, por seus pecados, por tudo que ele era. Harry era limpo, puro, jovem – merecia coisa muito melhor do que alguém como ele.
Até que eles tivessem que dar adeus, porém, Severus teve um amante sincero, gentil e atencioso. Harry tinha a virilidade de seus 17 anos e a dedicação de um apaixonado, uma combinação que resultou em longas e inebriantes sessões de sexo memorável. Rapidamente o rapaz venceu sua inexperiência e decorou seu corpo com precisão, arrancando dele reações que nunca ninguém sequer tinha se preocupado em obter dele. Severus sentiu coisas das quais não sabia o nome e que não imaginava existirem.
O jovem Gryffindor descobriu que preferia ser possuído a assumir um papel mais dominante, embora Severus com freqüência oferecesse seu corpo para que ele o penetrasse. Mas a sensação de estar dentro de Harry era exuberante, e Severus podia ver seu membro reagindo toda vez que Harry rebolava sugestivamente seu traseirinho bem-feito. Era pura tentação.
Muitas noites, Severus ficava acordado, vendo Harry dormir na calada da noite. Ele observava os cílios grandes, o corpo nu deitado de bruços, o cabelo eternamente desarrumado, a boca semi-aberta, babando levemente. Seu coração se apertava nessas horas, imaginando que em breve Harry voltaria a odiá-lo, e que era assim que as coisas deveriam ser. Contudo, ele nunca conseguia ficar observando muito tempo: ou Harry acordava e eles faziam amor apaixonadamente, ou Harry se aninhava todo para ficar agarradinho a seu corpo. Como ele conseguiria dormir sozinho depois de ter aquela presença persistente em sua cama?
Além de constante, o sexo era intenso. Harry gostava de lhe dar prazer oral, e constantemente, Severus era abocanhado de surpresa, seu pênis se enrijecendo dentro da boca de Harry. Muitas manhãs ele foi acordado com as atenções orais, que em seguida se transformaram em memoráveis 69s.
Severus sabia que Harry queria sexo anal, com paixão e intensidade, toda vez que ele se rebolava e o olhava de maneira libidinosa por cima dos ombros. E Severus o satisfazia, enterrando-se dentro de sua abertura apertadinha e quente, enfiando até achar o botãozinho de felicidade dentro de seu corpo. Os gemidos e as palavras doces que ele dizia só incentivavam Severus a lhe dar o máximo de prazer possível. Harry gritava o nome de Severus quando gozava, e esse som estava permanentemente gravado nos ouvidos de seu professor.
Embora não tivesse mais tocado no assunto, Harry claramente estava inconformado com a separação iminente. Prova disso foi que a última aula de Legilimência foi dedicada inteiramente a uma espécie de caçada, dentro da mente de Severus, às respostas a suas perguntas. Harry não encontrou o que buscava e ficou frustrado. Severus, aliviado.
Sempre inexorável, o tempo passou, e chegou a hora de Harry ir para Grimmauld Place. Deveria ser uma ocasião feliz, a do reencontro com seus amigos mais queridos, mas o garoto parecia plenamente deprimido com a perspectiva de dar adeus a alguém com quem tinha partilhado uma intimidade inédita. Naquela que seria a última noite dos dois, Harry mal tocou na comida durante o jantar, encarando Severus com uma insistência que beirava a falta de educação. Severus evitava falar qualquer coisa, temendo degenerar em uma discussão. Mas o olhar que Harry lhe lançava não era de raiva.
Sem uma palavra, o rapaz deixou-se escorregar da cadeira para o chão e engatinhou por debaixo da mesa até a cadeira de Severus. Ali mesmo, debaixo da mesa, ele se posicionou entre as pernas de Severus, abriu-lhe as calças e retirou-lhe o membro, beijando-o com carinho e devoção. Severus olhou para baixo, e viu Harry o encarando, a boca cheia, o olhar de súplica, desejo e amor.
As atenções orais do rapaz rapidamente o deixaram rijo, e Harry passou a chupar, alternando a sucção com passadas de língua sobre o membro rijo e pulsante. Geralmente silencioso durante o sexo, Severus não pôde evitar um gemido quando ele passou a dar lambidas rápidas sobre a glande, espalhando o líquido que saía da abertura.
Então Harry arrastou para trás a cadeira de Severus e saiu de baixo da mesa, para livrar-se das roupas e sentar-se no colo de Severus, ajeitando-se de pernas abertas sobre ele. Harry tomou a ereção dele e guiou-a para dentro de si, lentamente sentando-se sobre ela, prendendo a respiração, jogando a cabeça para trás ao sentir tudo aquilo entrando no seu corpo mal-preparado. Quando seu corpo se ajustou à invasão, ele elevou os quadris e depois os baixou novamente, começando a cavalgar, enterrando-se mais e mais sobre o pênis. A sucessão de diferentes expressões no rosto de Severus evidenciava as emoções que Harry provocava nele e o rapaz se sentiu orgulhoso por fazer o homem estóico e reservado incapaz de reprimir seus sentimentos. Severus acompanhava o ritmo de Harry, erguendo seus quadris ao mesmo tempo em que usava as mãos para masturbar o membro de Harry, preso entre seus corpos.
Os gemidos se transformaram em gritos e Harry ia para cima e para baixo com força e paixão, inebriado, a mão de Severus em sua ereção só intensificando as emoções. Gritando o nome de seu amante, ele explodiu, sua semente jorrando entre os dois. Ao mesmo tempo, seus músculos internos se fecharam ao redor do membro de Severus, levando-o também a um orgasmo poderoso. Harry se abraçou a ele, ofegante, e distribuiu-lhe beijos por todo o rosto. Ambos ficaram juntos assim por algum tempo, sentindo a respiração aos poucos se normalizar.
Naquela noite, previsivelmente, nenhum dos dois dormiu. Ele transaram alucinadamente, como se quisessem gravar o toque um do outro em suas peles. Mesmo entre uma rodada e outra, não havia sono. Eles ficavam abraçados, escutando a respiração um do outro, deixando o cheiro entrar em suas narinas e ficar registrado no cérebro, curtindo os últimos momentos, tentando imprimir em suas mentes o máximo de lembranças.
O dia amanheceu e a última trepada dos dois foi no chuveiro, Harry de frente para a parede, Severus segurando-lhe os quadris e enfiando com carinho, uma transa lenta sob a água corrente que poderia ter demorado horas.
O café foi rápido e silencioso, pois a bem da verdade, nenhum dos dois conseguiu comer coisa alguma.
A hora aproximava-se.
– Já arrumou suas coisas?
– Já. Não tenho muita coisa.
– Verifique se não esqueceu nada.
– Já fiz isso.
– Esta é a chave de portal que Dumbledore mandou – apontou para um novelo de lã cinza – Vai ser ativada em breve.
– Eu sei. Severus, eu gostaria de lhe agradecer. Nunca me esquecerei desse verão.
– Nem eu – um meio-sorriso.
– Quando estivermos só nós dois, posso continuar a chamá-lo de Severus? Afinal, somos amigos, não somos?
– Está bem, Harry.
– Eu vou sentir sua falta.
Hora de mudar de assunto.
– Está quase na hora.
De repente, num impulso, Harry se projetou para frente, colou seus lábios nos dele e beijou-o profundamente, o gosto de creme dental recém-usado espalhando-se pelos dois. Os dois ficaram muito tempo assim, uma espécie de desespero mudo enquanto eles se acariciavam com os lábios e línguas.
Relutantemente, Harry se desgrudou dele, sussurrando.
– Eu te amo, Severus. Não se esqueça disso.
Ele queria evitar uma cena.
– Harry, não...
Foi interrompido:
– Tá na minha hora – o rapaz pegou o malão e a vassoura numa mão e a chave de portal na outra – Adeus, meu amor. Vejo você em Hogwarts.
Harry sentiu o puxão no umbigo e viu a cabana de Severus se desfazer diante de seus olhos. Ele não viu o Mestre de Poções ficar de pé, parado, encarando o espaço vazio no espaço onde ele estivera segundos antes.
Harry jamais soube que seu professor passou praticamente o dia inteiro no laboratório, preparando, pela segunda vez naquele verão, uma poção delicada, rara e proibida, uma que fazia sonhar o desejo mais íntimo de quem a tomava. Harry também nunca ficou sabendo que naquela noite Severus sonhou com o desejo de seu coração: uma vida tranqüila, pacífica e comum ao lado de Harry James Potter.
THE END
A ser continuado em "A longa noite de nós dois"
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